Mercados Financeiros

Shein estreia-se em bolsa a perder valor

A Shein, gigante chinesa da fast fashion, entrou esta terça-feira em bolsa em Hong Kong, numa operação que a avaliou em pouco mais de 26 mil milhões de dólares — uma fracção do que a empresa chegou a valer no auge do seu crescimento. A estreia foi imediatamente penalizada pelo mercado: as acções chegaram a cair 10% nas primeiras horas de negociação, tendo recuperado parte das perdas ao longo da sessão para fechar a manhã com uma desvalorização por volta dos 7-8,6%. No mesmo dia, entrou em vigor em França uma nova penalização financeira sobre cada peça de vestuário considerada “ultra descartável”, com a Shein, a Temu e a AliExpress como alvos declarados da medida.

A operação em Hong Kong envolveu a colocação de 280 milhões de acções, ao preço de 48,56 dólares de Hong Kong cada, gerando uma receita de cerca de 13,6 mil milhões de dólares de Hong Kong (1,7 mil milhões de dólares norte-americanos). O valor de mercado resultante — pouco mais de 26 mil milhões de dólares — compara com uma avaliação de quase 100 mil milhões de dólares que a empresa atingiu em 2022, numa ronda de financiamento privado, e com os cerca de 64 mil milhões de dólares atribuídos numa ronda subsequente em 2023. Ou seja, a Shein estreou-se em bolsa avaliada em aproximadamente um quarto do que já valeu no seu auge.

Este longo processo de desvalorização reflecte-se também no abrandamento do crescimento da empresa: segundo os documentos do processo de admissão à bolsa, a receita da Shein cresceu 41,1% em 2023 e 20,7% em 2024, mas apenas 8% em 2025, quando as receitas totais atingiram 41,8 mil milhões de dólares. No primeiro trimestre de 2026, a empresa registou mesmo um prejuízo de 99 milhões de dólares, uma reviravolta acentuada face ao lucro de 395 milhões de dólares obtido no mesmo período do ano anterior.

Uma cotação penalizada por múltiplos factores

A reacção do mercado à estreia da Shein reflecte um conjunto de preocupações que os analistas já vinham a sinalizar antes da operação. Segundo Charu Chanana, estratega-chefe de investimento da Saxo, citada pela Reuters, mesmo depois de uma redução tão acentuada da avaliação, os investidores continuam a não ver a Shein como uma opção obviamente barata: a empresa entrou em bolsa avaliada a 15 vezes os lucros futuros esperados, mais do dobro do múltiplo atribuído à PDD, dona da concorrente Temu — o que, segundo Chanana, significa que se está a pedir aos investidores que paguem um prémio apesar de um crescimento mais fraco e de riscos regulatórios e comerciais consideráveis.

Phillip Wool, responsável de investigação na Rayliant Global Advisors, foi ainda mais directo: segundo o analista, citado pela CNBC, a Shein “perdeu a janela” ideal para a sua entrada em bolsa, numa altura em que o entusiasmo dos investidores se deslocou do comércio electrónico tradicional para a inteligência artificial, ao mesmo tempo que a empresa enfrenta ventos contrários directos na concorrência nos Estados Unidos e na Europa.

Um caminho longo e acidentado até à bolsa

A entrada em bolsa em Hong Kong marca o fim de uma travessia de quatro anos para a Shein, fundada na China em 2012 e sediada em Singapura desde finais de 2021. Depois de anos a reivindicar credenciais de empresa verdadeiramente global, a Shein acabou por reabraçar as suas raízes chinesas para conseguir listar-se em Hong Kong, depois de tentativas fracassadas de entrada em bolsa em Nova Iorque e em Londres — ambas travadas, em última instância, pelas autoridades chinesas, num contexto de forte escrutínio internacional sobre as práticas empresariais da companhia.

O fundador e presidente executivo, Sky Xu, conhecido por evitar a exposição pública, não discursou na cerimónia de abertura da negociação, embora tenha posteriormente posado para fotografias com funcionários da empresa. Segundo a directora financeira da Shein, Leigh Gui, a empresa vai continuar a “inovar, optimizar e cooperar” com os seus parceiros da cadeia de fornecimento, num compromisso de “resultados mutuamente benéficos” com a nova fase de empresa cotada em bolsa.

A tenaz relação entre a Shein e a França

O mesmo dia em que a Shein se estreou em bolsa marca também a entrada em vigor de uma nova lei francesa dirigida directamente ao modelo de negócio da fast fashion asiática. A partir desta terça-feira, plataformas como a Shein, a Temu e a AliExpress passam a estar sujeitas a uma penalização financeira aplicada a cada peça de vestuário considerada “ultra efémera” — vestuário caracterizado pela combinação de um volume muito elevado de novas referências colocadas no mercado com uma fraca incitação à reparação dos produtos.

A penalização, publicada em decreto no Diário da República francês no final de Agosto, começa este ano nos 50 cêntimos para artigos como cuecas ou meias, subindo para 2 euros num t-shirt, 9 euros numas calças de ganga e 12 euros num casaco — sempre com um limite máximo de 50% do preço do artigo antes de impostos. Estes valores deverão aumentar de forma gradual até 2030, quando um casaco poderá chegar a suportar uma penalização de até 19,50 euros. Marcas europeias estabelecidas, como a Zara, a H&M ou a Uniqlo, ficam, segundo os critérios definidos pela lei, largamente fora do âmbito desta medida, tal como a revenda de roupa em segunda mão, explicitamente excluída do dispositivo.

A lei, aprovada por unanimidade no Parlamento francês a 8 de Julho, prevê ainda uma proibição de publicidade a estas marcas de moda ultra-económica — mas essa componente específica só entrará em vigor a partir de 1 de Janeiro de 2027, e não em simultâneo com a penalização financeira que arranca hoje.

Uma relação já marcada por outras tensões

A pressão regulatória francesa sobre a Shein não se limita à questão ambiental. Nos últimos meses, a empresa viu-se envolvida em investigações judiciais em França depois de a plataforma ter sido associada à venda de armas ilegais e de bonecas sexuais com características infantis, o que levou o Ministério das Finanças francês a ameaçar uma proibição da marca em todo o país. A Procuradoria de Paris investiga ainda a Shein, juntamente com a Temu, a AliExpress e a Wish, por suspeitas de permitirem o acesso de menores a conteúdo pornográfico através das suas plataformas — um processo que decorre em paralelo com a recente abertura da primeira loja física permanente da Shein em Paris, no armazém BHV, gerando fortes críticas do sector têxtil tradicional francês.

Este duplo golpe — uma estreia em bolsa penalizada pelos investidores internacionais e uma nova frente regulatória num dos seus mercados europeus mais importantes — resume bem o momento delicado que a Shein atravessa: uma empresa que já foi um dos maiores fenómenos do comércio electrónico mundial, mas que hoje enfrenta escrutínio crescente sobre praticamente todas as frentes do seu modelo de negócio, da avaliação financeira ao impacto ambiental, passando pela segurança dos produtos vendidos na sua plataforma.

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