Esta terça-feira, 1 de Setembro, marca o fim de uma das lideranças mais bem-sucedidas da história empresarial recente: depois de 15 anos à frente da Apple, Tim Cook deixa o cargo de presidente executivo (CEO) da tecnológica californiana, cedendo o lugar a John Ternus, até agora vice-presidente sénior de Engenharia de Hardware da empresa. A transição, aprovada por unanimidade pelo conselho de administração e anunciada publicamente em Abril, encerra um mandato que transformou a Apple na primeira empresa cotada em bolsa dos Estados Unidos a atingir mil milhões de dólares de valor de mercado — e que, mais tarde, a levaria a ultrapassar sucessivamente as barreiras dos dois, três e quatro biliões de dólares.
Tim Cook assumiu a liderança da Apple em Agosto de 2011, quando o cofundador Steve Jobs se demitiu do cargo, seis semanas antes de morrer. Poucos acreditavam, na altura, que alguém pudesse preencher o lugar de Jobs, a figura que tinha reinventado a própria identidade da empresa. Cook, no entanto, seguiu um caminho distinto do do seu antecessor — menos centrado na genialidade criativa de produto, e mais na disciplina operacional, na gestão de cadeia de fornecimento e na expansão sistemática do ecossistema de serviços da Apple — e transformou a empresa numa autêntica máquina de gerar valor para os accionistas.
Ao longo dos seus 15 anos como CEO, Cook liderou o lançamento de produtos e serviços como o Apple Watch, o Apple Pay, os AirPods e o Apple TV+, ao mesmo tempo que via a capitalização bolsista da empresa disparar: da fasquia simbólica de um bilião de dólares, alcançada em 2018, a Apple passou para dois biliões em 2020, ultrapassou os três biliões em 2022 e cruzou a marca dos quatro biliões de dólares em Outubro de 2025. Em Julho de 2026, chegou mesmo a ultrapassar temporariamente a Nvidia como a empresa cotada mais valiosa do mundo. Actualmente, a Apple vale cerca de 4,6 biliões de dólares, ocupando o segundo lugar do pódio mundial, atrás da própria Nvidia (5,25 biliões) e à frente da Microsoft (3,79 biliões) — um patamar que consolida a “árvore das patacas” em que Cook transformou a empresa herdada de Jobs.
Quem é John Ternus, o escolhido para suceder a Cook
Ao contrário de Cook, que já era uma figura pública proeminente quando assumiu o cargo, John Ternus corresponde exactamente ao perfil descrito como “low profile”: um executivo pouco conhecido do grande público, mas que a Apple vinha a preparar, de forma deliberada, para este momento há vários anos. Nascido em 1975 ou 1976, Ternus estudou engenharia mecânica na Universidade da Pensilvânia, onde também competiu na equipa de natação universitária, licenciando-se em 1997. Depois de uma breve passagem pela empresa Virtual Research Systems, onde desenhava auscultadores de realidade virtual, ingressou na equipa de design de produto da Apple em 2001.
A ascensão de Ternus dentro da Apple foi longa e consistente: chegou a vice-presidente de Engenharia de Hardware em 2013, e foi promovido a vice-presidente sénior em 2021, altura em que assumiu também a responsabilidade pelo hardware do Apple Watch, substituindo Dan Riccio, que saiu para liderar o que viria a ser o projecto (mal sucedido comercialmente) do Vision Pro. Nessa promoção, Ternus tornou-se o membro mais jovem da equipa executiva da Apple, descrito pela Bloomberg News como “carismático e popular” dentro da empresa. Segundo a própria Apple, Ternus foi um contribuidor-chave para o lançamento do iPad e de várias gerações de produtos da empresa ao longo da última década, sendo amplamente apontado pela imprensa especializada, nos últimos anos, como o sucessor mais provável de Cook.
Uma transição pensada há muito tempo
O anúncio oficial da mudança foi feito pela Apple em Abril de 2026, quando a empresa revelou que Cook passaria a exercer o cargo de presidente executivo do conselho de administração (executive chairman) a partir de 1 de Setembro, mantendo-se na empresa mas deixando as funções executivas do dia-a-dia. Nessa nova posição, Cook continuará a apoiar a Apple em determinadas áreas, nomeadamente na relação com decisores políticos em todo o mundo. Arthur Levinson, que exerceu funções de presidente não-executivo do conselho ao longo dos últimos 15 anos, passa a assumir o cargo de administrador independente principal (lead independent director), também com efeitos a partir de hoje. Ternus, por sua vez, junta-se formalmente ao conselho de administração da empresa.
Segundo a própria Apple, a transição resultou de um “processo de planeamento de sucessão ponderado e de longo prazo”, e não de uma decisão precipitada. Em comunicado, Cook descreveu ter sido “o maior privilégio da sua vida” ter liderado a Apple, enquanto Levinson elogiou o que classificou como uma liderança “sem precedentes e excepcional”, que transformou a Apple na “melhor empresa do mundo”. Sobre o seu sucessor, Levinson afirmou acreditar que Ternus é “o melhor líder possível” para suceder a Cook, destacando o seu conhecimento técnico profundo e o foco constante na criação de grandes produtos.
Os desafios que esperam Ternus
A chegada de Ternus à liderança da Apple ocorre num momento de forte concorrência entre as gigantes tecnológicas norte-americanas pelo título de empresa mais valiosa do mundo — um pódio que, ao longo dos últimos anos, tem alternado entre a Apple, a Nvidia, a Microsoft e a ExxonMobil. Caberá agora a Ternus não apenas gerir essa disputa constante de valorização bolsista, mas também demonstrar que a Apple, historicamente identificada pela genialidade de produto de Jobs e pela eficiência operacional de Cook, consegue continuar a inovar numa era cada vez mais dominada pela inteligência artificial — um terreno onde a empresa tem sido vista, por parte da imprensa especializada, como menos agressiva do que rivais directas como a Microsoft ou a Google.
Com um perfil de engenheiro de produto, e não de gestor financeiro ou de operações como Cook, Ternus chega ao cargo de CEO com a missão dupla de honrar o legado de disciplina e crescimento sustentado deixado pelo antecessor, e, ao mesmo tempo, reencontrar para a Apple parte do ímpeto de inovação de produto que a marca sempre reivindicou como sua identidade central.