O Presidente chinês, Xi Jinping, prometeu o reforço dos laços entre a China e a Rússia, depois de se reunir com o homólogo russo, Vladimir Putin, à margem da cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), que decorre desde segunda-feira em Bishkek, capital do Quirguistão. No primeiro encontro entre os dois líderes desde Maio, Xi afirmou estar “feliz” por voltar a encontrar-se com Putin, e assegurou-lhe que os laços bilaterais entre Pequim e Moscovo se tornaram “mais sólidos” — uma declaração feita numa altura em que a Rússia atravessa o quinto ano da guerra na Ucrânia.
A cimeira de dois dias, que assinala o 25.º aniversário da fundação da organização, reúne líderes de um bloco de dez Estados-membros — Rússia, China, Índia, Paquistão, Irão, Bielorrússia e quatro países da Ásia Central —, além de convidados como a Turquia. Para Pequim, o encontro em Bishkek é também uma oportunidade de projectar força diplomática num momento particularmente delicado das relações internacionais: segundo um antigo conselheiro para a China da administração Biden, citado pelo New York Times, a cimeira permite à China mostrar que tem “amigos e opções por todo o mundo”, precisamente numa altura em que Washington tem vindo a afastar vários dos seus próprios aliados tradicionais.
O contexto geopolítico em que a cimeira decorre não é de somenos: a Organização de Cooperação de Xangai reúne-se com vários dos seus membros directamente envolvidos em conflitos activos — a guerra da Rússia na Ucrânia, agora no quarto ano e meio, e a guerra entre os Estados Unidos e o Irão, que dura já seis meses — ou em disputas comerciais, com os Estados Unidos a terem imposto tarifas tanto a produtos chineses como indianos. Este mês, Washington aplicou ainda sanções secundárias aos parceiros comerciais do Irão nos sectores do ouro, tecnologia, activos digitais, aviação e transporte marítimo, numa tentativa de estrangular a economia iraniana — medida a que a China, um dos maiores importadores de petróleo iraniano, respondeu prometendo “defender firmemente” os seus interesses.
O difícil equilíbrio da Índia
Entre os líderes presentes em Bishkek, o mais observado é, porventura, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, cuja participação surge num momento de degelo cauteloso entre a Índia e a China, depois de anos de tensão na fronteira comum. Nas vésperas da cimeira, os dois países comprometeram-se a continuar os esforços para uma resolução da disputa fronteiriça e a manter a estabilidade ao longo da linha de contacto — um processo iniciado depois dos confrontos mortais na fronteira em 2020, que tinham levado as relações bilaterais a um dos pontos mais baixos das últimas décadas.
Ainda assim, segundo um comentador da revista Foreign Policy, a Índia surge em Bishkek como um participante “relutante e defensivo” — incapaz de se aproximar demasiado da China, ou de se identificar plenamente com a agenda anti-Ocidental promovida por Pequim e Moscovo. Este equilíbrio delicado reflecte a posição historicamente ambígua de Nova Deli dentro da Organização de Cooperação de Xangai: a Índia beneficia da plataforma para gerir a relação com os seus vizinhos regionais e reduzir tensões pontuais, mas mantém, ao mesmo tempo, parcerias estratégicas robustas com os Estados Unidos e outras potências ocidentais, que a colocam numa posição bem distinta da de Moscovo e Pequim no tabuleiro geopolítico global.
Uma organização que já não é só sobre segurança regional
Fundada em 2001 pela China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Usbequistão, a Organização de Cooperação de Xangai nasceu com um enfoque inicial na segurança regional e no combate ao terrorismo na Ásia Central. Duas décadas e meia depois, a organização — hoje ampliada com a adesão da Índia, do Paquistão, do Irão e da Bielorrússia — tornou-se também uma plataforma através da qual China e Rússia procuram promover a sua visão de uma ordem mundial multipolar, e apresentar uma frente unida face ao que consideram ser a hegemonia ocidental. A agenda oficial da cimeira em Bishkek inclui temas como segurança regional, combate ao terrorismo transfronteiriço, comércio, cooperação económica, conectividade, segurança energética, energia limpa e cooperação digital, devendo culminar numa declaração conjunta, a chamada Declaração de Bishkek.
Entre os temas de política externa mais sensíveis discutidos nos bastidores está ainda a situação no Médio Oriente, incluindo a questão palestiniana: numa reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros da organização em Julho, os membros da OCX já tinham manifestado preocupação com os desenvolvimentos na região e reiterado que os conflitos internacionais devem ser resolvidos por vias políticas e diplomáticas, em conformidade com o direito internacional e a Carta das Nações Unidas — uma posição que, na prática, distancia a organização da abordagem mais assertiva adoptada por Washington em relação ao Irão.
O que esta cimeira sinaliza para o resto do mundo
Para além das dinâmicas entre Pequim, Moscovo e Nova Deli, a cimeira de Bishkek funciona também como termómetro para perceber até que ponto as tensões comerciais e militares lançadas pelos Estados Unidos ao longo do último ano — tarifas, sanções e conflitos armados directos, como no caso do Irão — estão a empurrar um conjunto cada vez mais amplo de potências médias e regionais para plataformas alternativas de cooperação lideradas por Pequim e Moscovo. Se, por um lado, a presença de líderes como Modi mostra os limites dessa aproximação, por outro, o reforço explícito da aliança entre Xi e Putin sugere que, pelo menos entre os dois principais impulsionadores da organização, a distância face ao Ocidente tende antes a aprofundar-se do que a diminuir.