Ciência & Tecnologia

Combustíveis fósseis ganham um inesperado aliado: a inteligência artificial

Um novo estudo académico sugere que a inteligência artificial (IA) pode acabar por reforçar a dependência global de combustíveis fósseis, em vez de acelerar a transição para as energias renováveis.

A investigação, publicada na revista npj Climate Action (do grupo Nature), conclui que a IA está a tornar a extração de petróleo e gás mais eficiente e mais barata, o que pode gerar mais emissões de CO2 do que aquelas que a tecnologia ajuda a evitar através das energias limpas.

Segundo os autores, liderados por Holly e Will Alpine— antigos funcionários da Microsoft e fundadores da iniciativa Enabled Emissions Campaign —, num cenário em que tanto os combustíveis fósseis como as renováveis beneficiam igualmente dos ganhos trazidos pela IA, as emissões globais de dióxido de carbono podem aumentar entre 0,47 e 1,8 mil milhões de toneladas por ano. No limite inferior, esse aumento equivale, grosso modo, às emissões anuais do México; no limite superior, aproxima-se das emissões da Rússia, um dos quatro maiores poluidores do mundo.

Holly Alpine explicou que a maioria das avaliações sobre o impacto climático da IA se centra apenas na comparação entre o consumo energético dos centros de dados e as emissões que a tecnologia ajuda a evitar — por exemplo, ao tornar mais eficientes as rotas aéreas ou a sincronização de semáforos. Segundo a investigadora, falta considerar “o outro lado da mesma balança”: as emissões que a IA permite ao tornar a produção de petróleo e gás mais lucrativa.

A IA está, de facto, a ser cada vez mais usada pela indústria petrolífera — empresas como Chevron, ExxonMobil, ADNOC, Aramco e prestadoras de serviços como SLB, Halliburton e Baker Hughesrecorrem a algoritmos para identificar zonas de perfuração mais promissoras e otimizar a extração. Segundo estimativas da Goldman Sachs citadas no estudo, a IA pode reduzir em cerca de 30% os custos de perfuração de novos poços nos EUA e aumentar entre 8% e 20% as reservas de petróleo recuperáveis — o equivalente a 10 a 30 mil milhões de barris.

O estudo conclui ainda que os eventuais ganhos de eficiência trazidos pela IA às energias renováveis tendem a ser anulados pelos ganhos semelhantes obtidos pela indústria fóssil, um efeito que os autores descrevem como assimétrico e mais favorável à manutenção do domínio dos combustíveis fósseis.

Paralelamente, uma análise do Financial Timesrecentemente citada estima que a própria construção de centros de dados para alimentar a IA nos Estados Unidos pode gerar quase 101,5 milhões de toneladas de CO2 por ano — cerca de 7% das emissões do setor elétrico norte-americano em 2025. Segundo o novo estudo, porém, este impacto direto dos data centers é claramente inferior ao das chamadas “emissões habilitadas” pela IA na indústria petrolífera.

A American Petroleum Institute (API), representante do setor petrolífero norte-americano, respondeu que a indústria continua “a produzir mais energia ao mesmo tempo que reduz emissões”, através de investimento em melhor tecnologia e práticas operacionais mais eficientes.

 

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