Política 

Economia e custo de vida podem decidir eleição presidencial de hoje na Zâmbia

A economia deverá ser um dos principais factores de decisão dos eleitores zambianos nas eleições presidenciais de hoje, 13 de Agosto, numa votação em que o Presidente Hakainde Hichilema procura um segundo mandato e enfrenta o desafio de convencer a população de que a recuperação macroeconómica registada desde 2021 já se traduz numa melhoria concreta das condições de vida.

Hichilema chega às urnas com alguns resultados económicos que podem ser apresentados como trunfos da sua governação. A inflação anual caiu para 6,5% em Junho, o nível mais baixo em mais de oito anos, depois de o país ter atravessado um período de forte instabilidade económica. A descida da inflação foi acompanhada por uma maior estabilidade da moeda e por uma recuperação da actividade económica.

O Governo pode também reivindicar progressos na renegociação da dívida. Desde que Hichilema chegou ao poder, em 2021, a Zâmbia avançou na reestruturação de mais de 12 mil milhões de dólares de dívida, depois do incumprimento da dívida soberana registado em 2020. A recuperação dos preços do cobre, principal produto de exportação do país, ajudou igualmente a melhorar as perspectivas económicas.

Mas é precisamente aqui que reside o principal risco eleitoral para o Presidente: os indicadores macroeconómicos positivos não significam necessariamente que os cidadãos sintam uma melhoria proporcional no seu dia-a-dia.

A inflação mais baixa significa que os preços estão a subir mais lentamente, mas não que tenham regressado aos níveis anteriores. Para muitas famílias, os custos acumulados da alimentação, energia e outros bens essenciais continuam elevados. O custo de vida tornou-se, por isso, uma das principais questões da campanha eleitoral.

A oposição procura explorar esta diferença entre a recuperação económica apresentada pelo Governo e a realidade enfrentada pelas famílias. Brian Mundubile, principal adversário de Hichilema nesta corrida, tem colocado o custo de vida e as dificuldades económicas no centro da sua campanha, procurando transformar a eleição num referendo sobre o desempenho do Presidente.

Cobre, o petróleo da Zâmbia

A economia da Zâmbia, país que faz fronteira com Angola,continua fortemente dependente do cobre, que representa cerca de 70% das receitas de exportação e constitui uma importante fonte de receitas públicas, investimento e emprego. O Governo de Hichilema pretende aumentar significativamente a produção, com a ambição de chegar a três milhões de toneladas anuais até 2031.

O desafio político consiste em transformar essa riqueza mineral em benefícios perceptíveis para a população. O aumento do investimento no sector mineiro pode melhorar as receitas do Estado, criar empregos e atrair capital estrangeiro, mas os eleitores querem saber de que forma essa riqueza chegará às famílias, sobretudo num país onde a pobreza e o desemprego continuam a ser importantes preocupações.

É essa questão que pode determinar a avaliação da governação económica de Hichilema: a estabilidade económica é suficiente se não for acompanhada por uma melhoria do poder de compra?

Inflação baixa, mas pressão social elevada

A situação cria um paradoxo para o Presidente. Hichilema pode argumentar que recebeu uma economia em crise e conseguiu recuperar a estabilidade, reduzir a inflação e reestruturar a dívida. A oposição, por seu lado, pode responder que estabilidade macroeconómica não é sinónimo de prosperidade para a maioria da população.

Esta diferença entre os números e a percepção popular poderá ser particularmente importante entre os eleitores mais jovens e as famílias de menores rendimentos. Para esses grupos, a criação de empregos, os preços dos alimentos, o custo da energia e o rendimento disponível podem pesar mais na decisão eleitoral do que a evolução da dívida pública ou das reservas cambiais.

A própria análise da eleição aponta para uma disputa entre duas interpretações da economia: de um lado, o Governo apresenta a recuperação e as reformas como prova de que a sua estratégia está a funcionar; do outro, a oposição procura capitalizar a insatisfação provocada pelo custo de vida.

Uma eleição sobre o passado e o futuro

Mais do que uma simples avaliação da inflação, a votação de hoje poderá representar um julgamento sobre o custo social das reformas económicas realizadas desde 2021.

Hichilema precisa de convencer os eleitores de que a estabilização alcançada é a base para uma fase de maior crescimento e criação de emprego. A oposição precisa de demonstrar que os resultados económicos ainda não chegaram à maioria dos zambianos.

Assim, a inflação pode não ser, isoladamente, o factor que decide a eleição, mas o custo de vida poderá ser determinante. Se os eleitores entenderem que a redução da inflação e a recuperação económica estão a melhorar efectivamente as suas condições de vida, Hichilema poderá transformar os resultados económicos numa vantagem eleitoral. Se, pelo contrário, prevalecer a percepção de que a economia recuperou nos indicadores, mas não no bolso das famílias, a oposição terá uma poderosa arma política.

No fundo, a eleição presidencial zambiana coloca uma pergunta económica simples, mas politicamente decisiva: os zambianos estão dispostos a esperar pelos benefícios das reformas ou querem resultados imediatos no seu nível de vida?

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