O banqueiro que esteve à frente do Lloyds e do Credit Suisse é apontado como vice-presidente não executivo do banco português, num convite feito directamente pelo presidente do BPCE, o novo dono da instituição financeira.
Depois de ter estado à frente de bancos de capital espanhol e de instituições inglesas, é agora pela mão de franceses que António Horta Osório volta à banca portuguesa. O banqueiro foi convidado pelo Banque Populaire Caisse d’Epargne (BPCE) para vir a integrar a administração do Novo Banco com um cargo não executivo — isto é, com funções de orientação e fiscalização, mas não de gestão diária.
Este convite enquadra-se em mudanças de maior fôlego que o grupo francês pretende implementar no banco português, cuja compra fechou em Abril, com a tentativa de alteração do modelo de governação do banco, deixando para trás a organização imposta pela Lone Star, que o controlou de 2017 a 2026.
A nomeação do banqueiro português precisa de “luz verde” do Banco de Portugal, que fará agora a avaliação da idoneidade dos nomes escolhidos pelo BPCE para integrar a administração do Novo Banco — o chamado processo de fit and proper. Apesar de acumular vários cargos não executivos e de consultoria, esse factor não constitui, por si só, um impedimento. O supervisor deverá avaliar a disponibilidade do gestor, a compatibilidade das funções e a eventual existência de conflitos de interesses, podendo pedir esclarecimentos ou, se o considerar necessário, exigir a renúncia a algum dos cargos.
Segundo avançou o Jornal Económico, e confirmou a CNN Portugal, o convite foi feito directamente por Nicolas Namias, presidente do BPCE, que deverá ficar como presidente não executivo (chairman) do Novo Banco, cabendo a Horta Osório o cargo de vice-presidente (vice-chairman). O lugar de presidente executivo (CEO) do Novo Banco permanecerá ocupado por Mark Bourke — uma continuidade que o próprio BPCE já garantiu publicamente, esclarecendo que “este processo não terá qualquer impacto na continuidade de Mark Bourke como administrador executivo do Novo Banco”. A lista dos novos membros do conselho de administração já deu entrada no Banco de Portugal.
Contactado pela imprensa sobre o convite, o BPCE respondeu, sem confirmar directamente o nome de Horta Osório, que “está actualmente a analisar diferentes opções para a evolução do modelo de governação do Novo Banco, alinhando-o de forma mais estreita com as melhores práticas de mercado em Portugal, de modo a reforçar o apoio ao desenvolvimento estratégico da instituição”. Horta Osório, por seu lado, remeteu-se ao silêncio quando contactado directamente pelo Jornal Económico.
Quem é António Horta Osório
António Horta Osório é um dos banqueiros portugueses com maior percurso internacional. Depois de liderar a Santander Totta, em Portugal, e a Abbey National, no Reino Unido — ambas ligadas ao grupo espanhol Santander —, assumiu a presidência executiva (CEO) do Lloyds Banking Group entre 2011 e 2021, liderando a reestruturação de um dos maiores bancos britânicos na sequência da crise financeira de 2008.
Em 2021, assumiu a presidência não executiva (chairman) do Credit Suisse, mandato que se revelou curto e marcado por polémicas — nomeadamente a violação de regras de confinamento então em vigor na Suíça durante a pandemia de Covid-19 —, tendo saído do banco suíço em 2022.
Actualmente, além de consultor do BPCE, Horta Osório é vice-presidente não executivo do banco francês CCF, nomeação anunciada no final do ano passado e que marcou o seu regresso ao sector bancário depois da saída do Credit Suisse. É ainda presidente do conselho de administração da farmacêutica Bial (sem funções executivas), administrador não executivo na José de Mello Capital e na Fundação Champalimaud, entre outros cargos, além de consultor do banco italiano Mediobanca, da Cerberus e da consultora McKinsey, segundo o seu perfil no site da Bial.
“Um bom desfecho”
Numa entrevista recente ao Jornal Económico, Horta Osório comentou já publicamente a compra do Novo Banco pelo BPCE, num tom claramente elogioso. “Como banqueiro que sempre fui, […] a venda do Novo Banco aos franceses do BPCE foi, na minha opinião, positiva para o banco, para o sistema financeiro e os seus clientes e para o país em geral”, afirmou. Segundo o banqueiro, “é positivo […] não ter demasiada concentração em termos da propriedade do sector bancário num só país, seja ele qual for, e nesse aspecto os franceses têm pouca presença na banca portuguesa”. Horta Osório destacou ainda que “o BPCE é o segundo maior banco francês por capitais próprios e o quarto maior na Europa, tem uma cultura descentralizada e de grande proximidade aos clientes”, considerando este factor “muito positivo” para o Novo Banco e para os seus clientes, e sublinhando que o grupo francês elegeu Portugal como o seu segundo principal mercado na Europa — um sinal, segundo o banqueiro, do interesse crescente que o país está a despertar em termos de investimento directo estrangeiro.
Sobre o estado geral do sistema bancário português, Horta Osório foi taxativo: “O sistema bancário português está num dos melhores momentos de que me recordo nos últimos 30 anos”, considerando que o sector está “muito forte”, bem capitalizado, com boa qualidade de serviço e bons níveis de eficiência.
Quanto ao próprio Novo Banco, o banqueiro tem defendido publicamente o valor de uma instituição com mais de 150 anos de história e “trabalhadores fantásticos”, já tendo defendido, no passado, as sinergias de uma eventual fusão com outro grande banco português, o BCP — hipótese que acabou por não se concretizar, tendo Horta Osório elogiado, em alternativa, a venda ao BPCE como “um bom desfecho”.
O convite a Horta Osório insere-se num processo mais alargado de reformulação da governação do Novo Banco por parte dos novos donos franceses, que pretendem substituir o modelo herdado da era Lone Star por uma estrutura mais alinhada com as práticas de mercado habituais em Portugal. Segundo o próprio BPCE, “eventuais alterações futuras ao modelo de governação dependerão da aprovação das autoridades reguladoras competentes”, prometendo divulgar informações adicionais “ao longo dos próximos meses” — um processo que deverá manter o Novo Banco no centro das atenções do sector financeiro português nos próximos tempos, à medida que o novo capítulo da instituição, sob controlo francês, começa a ganhar forma.