Grupo alemão ultrapassaria a Air France-KLM na rota entre a União Europeia e a América do Sul, numa disputa que opõe as duas gigantes europeias pela privatização parcial da companhia portuguesa
O grupo Lufthansa vai passar a liderar o mercado dos voos entre a União Europeia e a América do Sul, se conseguir comprar 45% da TAP. “Seríamos o número um” com o “reforço da posição no Atlântico Sul”, disse esta terça-feira o presidente da Lufthansa, Carsten Spohr. “A TAP iria beneficiar das sinergias” do grupo alemão.
“Lisboa é a porta de entrada para a América do Sul”, afirmou Spohr, referindo-se aos 15 mil lugares que a Star Alliance — a aliança de companhias aéreas que junta a TAP e a Lufthansa há mais de duas décadas — tem disponíveis a partir da capital portuguesa.
Segundo dados relativos a 2025, o mercado entre a União Europeia e a América do Sul foi liderado pela IAG, com uma quota de 20%, seguida pela AirFrance-KLM, com 17%, e pela LATAM, com 13%. A TAP surge na quarta posição, com 11%, seguida da Turkish Airlines/Air Europa, também com 11%, e do próprio grupo Lufthansa, com apenas 9% — actualmente na sexta posição.
Com a TAP a bordo, e a sua quota de 11%, a Lufthansa conseguiria subir para a primeira posição, ultrapassando a actual líder Air France-KLM por um ponto percentual. “Ficaremos a liderar, à frente do número dois. Será um bom equilíbrio no Atlântico Sul com três grupos fortes. O nosso grupo, apoiado pela TAP, teria uma melhor pegada no mercado português, da América Latina, Argentina-Brasil, seria um bom complemento”, afirmou o executivo alemão.
Duas propostas vinculativas em cima da mesa
A declaração de Spohr surge depois de a Lufthansa e a Air France-KLM terem entregado, na semana passada, as suas propostas vinculativas para a compra de 45% do capital da TAP, no âmbito do processo de reprivatização parcial conduzido pela Parpública. Segundo a entidade gestora das participações do Estado, “cumpre agora à Parpúblicaelaborar, de modo fundamentado, um relatório que descreva pormenorizadamente as propostas recebidas (…) e que contenha uma apreciação daquelas, determinando o seu mérito absoluto e relativo em função dos critérios de selecçãoprevistos”.
Em comunicado, a Lufthansa sublinhou que a aquisição de “uma participação minoritária inicial” visa “estabelecer uma parceria de longo prazo entre o Grupo Lufthansa e a TAP Air Portugal, de forma a assegurar, de forma sustentável, o futuro de sucesso da TAP enquanto companhia aérea nacional de Portugal”. Segundo a empresa, a parceria permitiria “reforçar a posição de Lisboa como um hub atlântico estrategicamente relevante na rede do Grupo Lufthansa”, ampliando também a conectividade entre a Europa e outras regiões, como a América Latina, a África e a América do Norte. Spohrrecordou ainda o historial do grupo alemão a desenvolver companhias aéreas nacionais preservando a sua identidade própria — casos da SWISS, da Austrian Airlines, da Brussels Airlines e, mais recentemente, da ITA Airways.
Air France-KLM contra-ataca com o apoio da Delta
Do outro lado da disputa, a Air France-KLM tem procurado destacar a sua própria proposta, prometendo igualmente fazer de Lisboa “o seu único hub no Sul da Europa”, com o objectivo de reforçar a rede global do grupo franco-neerlandês e expandir a conectividade a mercados-chave, particularmente nas Américas e em África. O grupo invoca a “posição de liderança da TAP nas rotas estratégicas para o Brasil”, que consideram constituir “um complemento de peso” à sua oferta actual — já apoiada pela parceria com a companhia brasileira GOL, e reforçada, nesta proposta, pelo apoio da norte-americana Delta Air Lines. Caso vencesse o processo, a TAP passaria a integrar a rede comercial global do grupo, ao lado da Air France, da KLM e da Transavia.
Um trimestre difícil para a Lufthansa
O anúncio da ambição de liderança no Atlântico Sul surge num momento financeiramente complicado para o grupo alemão: a Lufthansa anunciou, também esta terça-feira, prejuízos de 542 milhões de euros no primeiro semestre do ano, contrastando com os 127 milhões de euros de lucros registados no período homólogo. No segundo trimestre isoladamente, o lucro da companhia recuou de mais de mil milhões de euros para apenas 123 milhões. A pesar nos resultados estiveram, sobretudo, os custos com combustível, que ficaram 750 milhões de euros acima dos registados há um ano — um contexto que reforça a importância estratégica que a Lufthansa atribui à eventual entrada no capital da TAP, como forma de expandir a sua rede e reforçar a rentabilidade do grupo a médio prazo.