Petrolífera estatal saudita apresentou lucro líquido de 32,7 mil milhões de dólares no segundo trimestre, apesar de instalações no reino terem sido alvo de ataques durante a disrupção no Estreito de Ormuz
A Saudi Aramco anunciou esta terça-feira que os seus lucros no segundo trimestre subiram 44% em termos homólogos, à medida que a disrupção na navegação através do Estreito de Ormuz fez disparar os preços do petróleo e do gás — mesmo depois de a petrolífera estatal ter revelado que algumas das suas instalações no reino saudita sofreram ataques.
A empresa registou um lucro líquido de 122,6 mil milhões de riais sauditas (32,7 mil milhões de dólares) entre Abril e Junho, face aos 85 mil milhões de riais (22,7 mil milhões de dólares) obtidos no mesmo período de 2025 — um valor praticamente em linha com os 32,5 mil milhões de dólares registados no primeiro trimestre deste ano. No conjunto do primeiro semestre de 2026, o lucro líquido totalizou 65,2 mil milhões de dólares, face aos 48,7 mil milhões de dólares no mesmo período do ano anterior.
O preço médio de venda do crude da Aramco subiu para 108,10 dólares por barril no trimestre, face aos 76,90 dólares registados nos primeiros três meses do ano e aos 66,70 dólares do mesmo período de 2025 — um aumento de 62,1% em termos homólogos. Segundo responsáveis da empresa, o aumento da receita resultou sobretudo da subida dos preços do crude e dos produtos refinados, que compensou uma redução nos volumes vendidos.
“O desempenho da Aramco no primeiro semestre de 2026 tem sido marcado pela notável resiliência da nossa equipa e pela agilidade do nosso negócio e das nossas operações para resistir e responder a condições de mercado em rápida mudança”, afirmou o presidente e CEO da Aramco, Amin H. Nasser, em comunicado.
Oleoduto Este-Oeste permitiu contornar o Estreito de Ormuz
A Aramco respondeu à guerra com o Irão recorrendo ao seu oleoduto Este-Oeste, com 1.200 quilómetros de extensão, que liga directamente ao Mar Vermelho, contornando assim o Estreito de Ormuz — uma das rotas marítimas mais críticas do mundo para o transporte de petróleo, e que tem sido alvo de sucessivos episódios de instabilidade desde o início do conflito. “Apesar da disrupção sem precedentes no fornecimento através do Estreito de Ormuz, continuámos a demonstrar a nossa capacidade de manter a continuidade do negócio”, afirmou Nasser, citando a “base de activos diversificada e o planeamento a várias décadas” da empresa, incluindo infra-estruturas estratégicas como o próprio oleoduto Este-Oeste, capacidade de armazenamento e terminais de exportação.
O director financeiro da Aramco, Ziad T. Al-Murshed, sublinhou que o planeamento de longo prazo e a infra-estrutura da empresa permitiram continuar a gerar valor para os accionistas, apesar das pressões regionais, notando que o lucro líquido ajustado subiu 33% em termos homólogos, para 33,4 mil milhões de dólares — acima das expectativas dos analistas consultados pela Bloomberg, que apontavam para 31,1 mil milhões de dólares.
Apesar dos resultados robustos, a geração de caixa mostrou sinais de contenção: o fluxo de caixa livre caiu para 12,3 mil milhões de dólares no trimestre, face aos 18,6 mil milhões de dólares nos três meses anteriores — uma quebra de cerca de 21% em termos homólogos —, que a Aramco atribuiu a um aumento de 13,6 mil milhões de dólares no capital circulante, associado a despesas mais elevadas. O rácio de endividamento da empresa, medida do seu nível de dívida face à base de capital, subiu para 6,2%. As despesas de capital cresceram apenas 7%, para 13,17 mil milhões de dólares, enquanto a empresa destinará 21,9 mil milhões de dólares ao pagamento de dividendos aos accionistas.
A maior petrolífera do mundo, ainda maioritariamente estatal
A receita total da Aramco no trimestre atingiu 139,15 mil milhões de dólares, face aos 108,57 mil milhões de dólares registados no mesmo período do ano passado — superando também as expectativas dos analistas. Apenas uma pequena fracção do capital da Aramco é negociada na Bolsa de Riade (Tadawul), sendo a esmagadora maioria da empresa detida directamente pelo Governo saudita, o que ajuda a financiar as despesas do Estado e contribui de forma decisiva para a riqueza da família real Al Saud.
Os resultados desta terça-feira representam uma clara inversão de tendência face ao desempenho da empresa em anos anteriores, marcados por preços do petróleo mais baixos: em 2025, a Aramco tinha registado descidas homólogas nos seus lucros trimestrais, reflectindo a fraqueza então sentida nos mercados internacionais de crude. O actual salto nos resultados ilustra bem como a escalada do conflito entre os Estados Unidos e o Irão — que tem feito o preço do petróleo Brent oscilar entre picos acima dos 100 dólares por barril e recuos acentuados, consoante os sinais de escalada ou de trégua — se tem traduzido em ganhos directos e substanciais para os grandes produtores de petróleo do Golfo Pérsico, ao mesmo tempo que impõe custos crescentes a economias importadoras de crude em todo o mundo.