Cultura

Quatro décadas depois, as Gingas do Maculusso continuam a dançar

Nascidas num programa infantil da Rádio Nacional de Angola (RNA), em 1983, as “meninas do Maculusso” tornaram-se um dos grupos musicais mais influentes da história do país, comparadas por muitos às Spice Girls angolanas

As Gingas do Maculusso são um dos grupos musicais mais relevantes da história recente da música popular angolana, e por muitos comparadas às Spice Girls, um girl group britânico formado em 1994 — composto por Mel B, Mel C, Emma Bunton, Geri Halliwell e Victoria Beckham — que se tornou um dos fenómenos pop mais bem-sucedidos e influentes dos anos 90, na mesma altura em que o girl group angolano ganhavam merecida notoriedade.

O grupo surgiu em 1983, no bairro do Maculusso, em Luanda, no âmbito do projecto Avilupa Kuimbila, coordenado por Rosa Roque, que se tornou a mentora da banda. As Gingas estrearam-se num dos programas infantis da Rádio Nacional de Angola, então sob o comando da jornalista Amélia Mendes. A formação inicial reuniu Celma Miguel, Gersy Pegado, Georgina Stela, Maria João, Paula Daniela e Patrícia Faria — sendo que Ise, outro dos rostos históricos do grupo, viria mais tarde a falecer.

Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, as Gingas do Maculusso construíram um vasto e rico repertório, combinando sonoridades tradicionais com influências mais contemporâneas, explorando géneros como o semba, o kilapanga e o kazukuta. O grupo soma cinco álbuns editados — “Mbanza Luanda” (1996), “Malanje, Natureza e Ritmos” (1997), “Xiami” (1999), “Muenhu” (2004) e “Luachimo” —, com temas que se tornaram verdadeiros clássicos da música angolana, como “Hino a Kalandula”, “Mestre Geraldo”, “Ndange”, “Filhas de África”, “Fuba” e “Kabetula”.

O álbum “Muenhu”, em particular, tornou-se um ícone na carreira do grupo: apresentado publicamente na Casa 70, em Luanda, na presença do então Presidente José Eduardo dos Santos e da primeira-dama Ana Paula dos Santos, o disco chegou a vender 3.300 cópias em apenas quatro horas, numa sessão de venda e autógrafos junto à sede da RNA. O trabalho, gravado integralmente em Angola, contou com a colaboração da banda Semba Master, de Betinho Feijó, Lito Graça e Chalana, além do congolês Lokwa Kanza, e prestou homenagem ao mestre Geraldo, tocador de harmónica e um dos mais reconhecidos coreógrafos do Carnaval angolano.

A trajectória das Gingas do Maculusso teve algumas pausas em diferentes momentos da sua história, o grupo esteve afastado dos palcos, regressando sempre com forte adesão do público. Em 2013, ano em que assinalaram três décadas de existência, lançaram uma colectânea discográfica e um livro com a história do grupo, reunindo depoimentos de personalidades que acompanharam o seu percurso desde o início. Já em 2020, o esforço de preservação cultural do conjunto foi reconhecido com o Prémio de Melhor Grupo de Música Moderna/Tradicional, na edição desse ano dos Prémios Globo Zap.

Quarenta anos depois, ainda a “guardar” os ritmos de Angola

Hoje, com Celma Miguel, Gersy Pegado e Georgina Stela na formação, as Gingas do Maculusso continuam activas, reavivando a memória das suas canções mais icónicas em diferentes palcos, dentro e fora de Angola. O grupo abriu, por exemplo, a 10.ª temporada do Show do Mês, no Royal Plaza Hotel, em Luanda, e marcou presença numa das edições do Festival das Danças Angolanas, no Mercado da Ribeira (Time Out), em Lisboa, um dos principais eventos de celebração da cultura angolana junto da diáspora em Portugal, e foram um dos principais destaques da 3.ª edição do festival, que decorreu em Abril de 2025.

Sobre esse convite, as artistas não escondem a emoção: “Sermos nós as escolhidas para estar nesse palco, deste festival, é sem sombra de dúvidas uma grande honra. (…) Não há um sentimento de angolanidade mais puro do que aquele que está nas pessoas que estão fora dela”, afirmou o grupo, em declarações à imprensa, antes de uma das suas actuações na capital portuguesa.

Com mais de quarenta anos de carreira, as Gingas do Maculusso mantêm-se como um símbolo de resistência cultural, dedicadas à missão de preservar e transmitir, a novas gerações, os ritmos e as tradições que marcam a identidade musical angolana — uma longevidade que comprova não só a sua relevância contínua na indústria musical angolana, como também a sua notável capacidade de se reinventar sem nunca perder a essência que as tornou, desde 1983, um verdadeiro ícone da cultura popular de Angola.

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