Ciência & Tecnologia

China lidera corrida espacial em África, enquanto Estados Unidos ficam para trás numa “desvantagem estrutural”

Dezenas de países africanos planeiam adquirir satélites até 2030, e a maioria recorre a Pequim, que oferece pacotes completos de hardware, lançamento e financiamento — algo que Washington não faz

Os países africanos estão a redobrar esforços para desenvolver os seus sectores espaciais, procurando parceiros internacionais capazes de fornecer satélites, financiamento e conhecimento técnico — uma dinâmica que tem vindo a favorecer, de forma cada vez mais clara, a China.

Dezenas de países africanos planeiam adquirir satélites até 2030, e a maioria está a recorrer a Pequim, que oferece pacotes integrados combinando hardware, serviços de lançamento e financiamento. Já Washington limita-se, sobretudo, a fornecer dados, formação e cooperação regulatória, em vez de equipamento físico — uma diferença que, segundo o jornalista Yinka Adegoke, da Semafor, cria uma “desvantagem estrutural” para os Estados Unidos. Actualmente, nenhum satélite africano é construído nos Estados Unidos, enquanto a China se prepara para lançar, em 2029, a primeira missão científica lunar de África.

Namíbia e Argélia entre os exemplos mais recentes

A cooperação espacial entre a China e o continente africano tem-se intensificado ao longo dos últimos meses. Em Novembro de 2025, a China e a Namíbia assinaram o certificado de entrega de uma estação terrestre de recepção e processamento de dados por satélite, construída com apoio chinês em Windhoek — projecto formalmente entregue à Namíbia em Fevereiro deste ano, e que, segundo o primeiro-ministro namibiano, Elijah Ngurare, deverá reforçar as capacidades do país em ciência espacial, resposta a catástrofes e desenvolvimento orientado para a inovação. Segundo a ministra namibiana da Educação, Inovação, Juventude, Desporto, Artes e Cultura, Sanet Steenkamp, a infra-estrutura vai funcionar como um activo nacional estratégico, fornecendo imagens de alta resolução independentes para apoiar a vigilância de fronteiras e costas, a protecção ambiental e a gestão de catástrofes.

Também a Argélia reforçou a cooperação com a China no lançamento de satélites: em Janeiro deste ano, a China lançou com sucesso, em apenas 16 dias, dois satélites argelinos de observação remota — o AlSat-3A e o AlSat-3B —, através de foguetões Longa Marcha 2C, a partir do Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan. Os satélites, desenvolvidos ao abrigo de um acordo de cooperação assinado em 2023, destinam-se ao ordenamento territorial e à prevenção e mitigação de catástrofes, incluindo sistemas terrestres, formação técnica e serviços de apoio para a Argélia.

Uma estratégia deliberada de Pequim

Segundo análises do sector, a expansão da cooperação espacial chinesa em África não é acidental: no seu mais recente Plano Quinquenal, a China afirmou de forma explícita a ambição de se tornar líder da indústria espacial mundial, atribuindo ao continente africano um papel central nessa estratégia — através de pacotes que combinam satélites, lançamento, infra-estrutura terrestre e formação técnica, tornando mais fácil para países africanos com orçamentos limitados aceder a tecnologia espacial sem terem de negociar separadamente cada componente do processo.

Angola tem o seu próprio satélite, mas ainda em fase de exploração comercial

Angola já não é uma excepção a este movimento africano de investimento no espaço, ainda que o seu percurso tenha sido marcado por avanços e recuos próprios. Depois da perda do ANGOSAT-1, em 2018, o país lançou, em Outubro de 2022, o ANGOSAT-2, a partir da base russa de Baikonur, no Cazaquistão — com a carga útil do satélite construída e instalada nas instalações da Airbus, em França. O satélite é hoje gerido pelo Gabinete de Gestão do Programa Espacial Nacional (GGPEN), através do Centro de Controlo e Missão de Satélites, situado na Funda, nos arredores de Luanda.

Segundo o ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, Mário Oliveira, o ANGOSAT-2 já beneficia mais de 20 mil angolanos através do serviço “Conecta Angola”, com implementação em curso nas províncias do Cuando Cubango, Bié, Lunda Norte e Lunda Sul, e uma antena recentemente instalada no posto fronteiriço do Luvo, na província do Zaire, para reforçar a ligação e a gestão fronteiriça. Ainda assim, a exploração comercial a grosso do satélite continua limitada: segundo o jornal Expansão, até há relativamente pouco tempo não existia ainda qualquer contrato assinado de prestação de serviços de conectividade com outros países, estando a adesão ao projecto ainda na fase de recepção de candidaturas de pequenas e médias empresas e startups interessadas em redistribuir o sinal de Internet nas zonas mais recônditas do país.

Uma dinâmica que se repete na Inteligência Artificial

Um padrão semelhante está, segundo um especialista do Atlantic Council citado pela Semafor, a repetir-se também no sector da Inteligência Artificial em África, onde a disponibilidade de pacotes completos de infra-estrutura — e não apenas a “superioridade técnica” de uma determinada tecnologia — tem sido o factor decisivo na escolha de parceiros internacionais por parte dos governos africanos. Trata-se, em ambos os casos, de uma lógica semelhante: países com recursos financeiros e capacidade técnica limitados tendem a privilegiar parceiros capazes de oferecer soluções chave-na-mão, financiadas de ponta a ponta, em detrimento de parceiros que ofereçam apenas componentes isolados de um processo tecnológico complexo — uma vantagem competitiva que a China parece ter compreendido, e explorado, de forma particularmente eficaz nos últimos anos, tanto no espaço como na Inteligência Artificial.

Relacionadas

DHL Express e Absa unem-se para impulsionar comércio transfronteiriço das

A DHL Express, líder mundial no transporte expresso internacional, e

Lufthansa promete liderança no Atlântico Sul se comprar 45% da

Grupo alemão ultrapassaria a Air France-KLM na rota entre a

Visa compra BioCatch por 2,4 mil milhões de dólares para

A Visa anunciou a aquisição da BioCatch, empresa especializada em