De poucos países dependem o petróleo, o gás, o cobalto ou as terras raras que sustentam indústrias inteiras — e essa concentração está a redesenhar o equilíbrio de poder global.
O poder de um país não depende apenas do tamanho da sua economia ou do seu exército. Muitas vezes, ele está nos recursos estratégicos que controla. Eles definem cadeias produtivas, influenciam decisões políticas e moldam o equilíbrio de poder global — e, cada vez mais, é em torno destes recursos, e não apenas de fronteiras ou de alianças militares, que se joga grande parte da geopolítica contemporânea.
No topo da lista continua o petróleo. Segundo dados da Administração de Informação Energética dos Estados Unidos (EIA), a produção mundial de crude ronda os 84,5 milhões de barris por dia, com cerca de 73% desse total a sair de apenas dez países. Os Estados Unidos lideram, com cerca de 22,8 milhões de barris diários, seguidos pela Arábia Saudita e pela Rússia, ambas acima dos dez milhões de barris por dia. Os onze países da OPEP respondem, em conjunto, por cerca de 32% da produção global, enquanto a OPEP+ (que junta a OPEP aos seus parceiros, incluindo a Rússia) ultrapassa os 55%.
Esta concentração explica por que razão decisões tomadas em Riade ou em Moscovo — ou conflitos regionais, como a recente escalada entre os Estados Unidos e o Irão — têm impacto directo e imediato nos preços internacionais do crude, com repercussões em cadeia sobre a inflação e a economia de países exportadores, incluindo Angola, cujas receitas fiscais continuam fortemente dependentes da volatilidade destes preços.
Cobalto: um único país produz mais de 200 mil toneladas por ano
Se o petróleo está relativamente disperso entre vários grandes produtores, outros recursos estão concentrados de forma ainda mais extrema. É o caso do cobalto — essencial para baterias de veículos eléctricos e para a indústria tecnológica —, cuja produção mundial é dominada quase por completo pela República Democrática do Congo (RDC), responsável por cerca de 200.800 toneladas em 2024, muito à frente do segundo maior produtor, a Rússia, com apenas 8.700 toneladas no mesmo ano. Uma parte significativa das minas congolesas de cobalto é, aliás, propriedade de empresas chinesas — um dado que ilustra como o controlo de um recurso não se limita à sua extracção geográfica, estendendo-se também à propriedade e ao processamento.
Terras raras: a verdadeira vantagem da China não está no subsolo
É precisamente esse segundo elo da cadeia — o processamento, e não apenas a extracção — que explica o domínio chinês sobre as chamadas terras raras, um grupo de 17 elementos essenciais para tecnologias como semicondutores, turbinas eólicas, motores eléctricos e equipamento militar de precisão. Segundo análises do World Economic Forum e do East Asia Forum, citadas pela imprensa especializada, a força da China não resulta apenas de reservas naturais abundantes, mas de décadas de investimento estatal deliberado no refino e processamento químico destes minerais — a etapa mais sensível e mais difícil de replicar em toda a cadeia produtiva. Esse controlo permite a Pequim exercer influência desproporcional sobre sectores industriais inteiros a nível mundial, incluindo a indústria aeroespacial e de semicondutores dos próprios Estados Unidos, que continuam a enfrentar sérias dificuldades para reconstruir cadeias de produção autónomas nestas áreas.
Esta vulnerabilidade tem levado os Estados Unidos e a União Europeia a adoptarem, nos últimos meses, políticas industriais activas para reduzir a dependência de fornecedores concentrados — um movimento conhecido como friendshoring e nearshoring, que procura aproximar cadeias produtivas de países aliados ou considerados parceiros de confiança. Só em Fevereiro deste ano, Washington assinou onze novos acordos-quadro bilaterais e memorandos de entendimento sobre minerais críticos com países como Argentina, Emirados Árabes Unidos, Equador, Filipinas, Guiné, Marrocos, Paraguai, Peru e Uzbequistão, no âmbito de uma reunião ministerial dedicada ao tema, além de ter lançado o Fórum para o Engajamento Geoestratégico em Recursos (FORGE).
América Latina e África, no centro da nova corrida
A América Latina ocupa hoje um lugar central nesta disputa, por reunir uma combinação rara de recursos: grandes reservas de petróleo, como na Venezuela e no Brasil; enorme potencial em energias renováveis; importantes depósitos de minerais críticos utilizados tanto na economia energética e digital como na indústria de defesa; e abundância de água e território — factores cada vez mais valorizados face à crise climática e à disputa global por recursos naturais. A Índia, por seu lado, detém a quarta maior reserva mundial de terras raras, além de reservas ainda por explorar de lítio, cobre, grafite e zircónio, o que levou Washington e Nova Deli a assinarem, em Fevereiro de 2025, o acordo TRUST, para estruturar cadeias de fornecimento conjuntas nestes sectores estratégicos — uma aproximação que, entretanto, arrefeceu, depois de os Estados Unidos terem imposto tarifas de 50% sobre produtos indianos.
Especialistas têm vindo a chamar aos minerais críticos “o novo petróleo da transição energética” — uma expressão que resume bem a mudança de paradigma em curso: se o século XX foi marcado pela disputa geopolítica em torno dos combustíveis fósseis, o século XXI parece estar a ser definido pela corrida aos minerais que alimentam baterias, painéis solares, turbinas eólicas e a própria inteligência artificial. Para países ricos em recursos naturais, mas ainda dependentes da exportação de matéria-prima em bruto, o desafio actual está em conseguir subir na cadeia de valor — apostando em processamento local, transferência de tecnologia e formação de mão-de-obra especializada —, em vez de continuarem a exportar riqueza mineral que outras economias transformam, refinam e revendem com muito maior valor acrescentado. É precisamente essa ambição — transformar recursos naturais em desenvolvimento efectivo, e não apenas em receitas de exportação — que atravessa hoje o debate económico em várias economias africanas, incluindo Angola, cuja diversificação económica depende, em larga medida, da capacidade de sair da simples condição de fornecedor de matérias-primas.