O estado de Nova Iorque decretou esta terça-feira a primeira moratória a nível estadual nos Estados Unidos à construção de novos centros de dados de grande escala (“hyperscale”) para inteligência artificial (IA), com o objectivo de conter os consumos de energia e de água associados a este tipo de infraestruturas.
A medida, assinada pela governadora Kathy Hochul através da Ordem Executiva n.º 62, suspende por até um ano a emissão de licenças ambientais estaduais discricionárias para novos centros de dados, enquanto o Departamento de Serviços Públicos do estado desenvolve uma avaliação de impacto ambiental genérica e uma estrutura regulatória abrangente para o sector.
“Acredito firmemente que as empresas que desenvolvem tecnologia capaz de transformar a civilização através da IA são igualmente capazes de colaborar connosco para proteger as nossas redes eléctricas, os nossos recursos hídricos e as nossas comunidades”, afirmou Hochul, em conferência de imprensa. A governadora democrata alertou que os centros de dados de hiperescala, utilizados para IA ou “big data”, ameaçam sobrecarregar a capacidade da rede eléctrica e elevar os custos para os consumidores locais. “Recuso-me a permitir que esses custos sejam transferidos para os nova-iorquinos, que já pagam preços elevados pelas suas contas de serviços públicos”, acrescentou.
A senadora estadual Kristen Gonzalez, autora da Lei de Desenvolvimento Responsável de Centros de Dados — aprovada pelo Senado e pela Assembleia do estado antes do final da sessão legislativa e que serviu de base à ordem executiva —, observou que a tecnologia deve melhorar a vida dos nova-iorquinos e “não poluir a água, sobrecarregar a rede de energia ou aumentar as contas de serviços públicos”. “Ao dar ao nosso estado tempo para planear, podemos garantir que o desenvolvimento e a inovação não ocorrem às custas de todos nós”, afirmou. Também a deputada estadual Didi Barrett saudou a decisão, recordando que, desde a aprovação da lei pelo Senado e pela Assembleia, “nova-iorquinos de todo o estado manifestaram-se a favor de uma moratória”, pedindo tempo para perceber o impacto destas infra-estruturas nos recursos naturais, nas comunidades e nos custos de energia.
Como parte da ordem executiva, Hochul instruiu a Empire State Development a desenvolver, num prazo de 60 dias, uma Estrutura de Investimento Comunitário, para assegurar que os centros de dados são construídos em áreas que os aceitem e que as localidades recebem, em troca, investimentos em infra-estruturas locais, creches e apoio financeiro directo às comunidades, além de verem cumpridas exigências quanto a padrões salariais, acordos de mão-de-obra em projectos, contratação local e formação profissional. A governadora determinou ainda ao Departamento de Serviços Públicos que estude a criação de um Fundo de Aceleração da Rede Eléctrica, que poderá exigir às grandes empresas tecnológicas que invistam nas infra-estruturasenvelhecidas da rede eléctrica do estado e na produção de energia limpa dedicada às suas próprias operações. Por fim, Hochul vai também avançar com legislação para revogar as isenções de imposto sobre vendas de que actualmente beneficiam os grandes centros de dados no estado.
A medida surge numa altura em que Nova Iorque regista um crescimento sem precedentes na procura de construção de centros de dados, impulsionado pela IA e por outras operações de computação intensiva, que exigem quantidades massivas de energia e água para arrefecer milhares de servidores. Assim que a nova estrutura regulatória estiver concluída, a moratória será levantada, permitindo que novos projectos avancem desde que cumpram as normas estaduais, os códigos de zonamento e as demais aprovações locais.