Mercados Financeiros

BCI distribui dividendos pela primeira vez desde a privatização e o valor supera o que o Estado recebeu pela venda

Os accionistas do Banco de Comércio e Indústria (BCI) aprovaram a distribuição de dividendos no valor de 18,31 mil milhões de kwanzas referentes ao exercício de 2025 — a primeira desde que o banco foi privatizado em 2021.

O simbolismo financeiro é assinalável: o montante supera em 11% os 16,5 mil milhões de kwanzas que o Estado angolano arrecadou com a venda da instituição, embora o investimento total dos accionistas inclua ainda um aumento de capital posterior de 15,022 mil milhões de kwanzas.

A distribuição corresponde a cerca de 35% do resultado líquido de 2025, estimado em 52 mil milhões de kwanzas, e marca uma ruptura com a estratégia de retenção de lucros adoptada desde que o universo empresarial ligado ao Grupo Carrinho assumiu o controlo da instituição através de um leilão em bolsa no formato de bloco indivisível.

Crescimento acentuado sob gestão privada

Os números do BCI no período pós-privatização reflectem uma transformação profunda. Os capitais próprios passaram de 19,06 mil milhões de kwanzas em 2021 para 161,8 mil milhões em 2025 — um crescimento de mais de oito vezes em quatro anos. Os lucros anuais acompanharam a mesma trajectória, de 1,97 mil milhões de kwanzas em 2022 para mais de 52 mil milhões em 2025. No total, entre 2021 e 2025, o banco acumulou cerca de 139 mil milhões de kwanzas em resultados líquidos.

Com os dividendos agora aprovados, os accionistasrecuperaram directamente cerca de 58% do investimento total realizado (compra inicial mais aumento de capital). A título indicativo, se o banco fosse hoje alienado com critérios semelhantes aos de 2021, o seu valor de mercado poderia situar-se acima dos 100 mil milhões de kwanzas — mantendo os investidores o controlo de uma instituição cujo património líquido está avaliado em 161,8 mil milhões.

Contexto histórico e privatização

A ausência de dividendos não era novidade no BCI. Entre 2012 e 2015, o banco registou prejuízos acumulados e, mesmo após o regresso a resultados positivos em 2016, o foco incidiu no saneamento financeiro. A diferença face ao período actual reside na velocidade: a gestão privada consolidou o banco num prazo que os críticos da privatização não antecipavam.

O processo de venda, conduzido pelo Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE), foi alvo de intenso debate público, com suspeitas de favorecimento e críticas ao valor de avaliação. Os dados actuais sugerem que, embora o preço de venda tenha ficado próximo dos capitais próprios da época, a gestão privada conseguiu desbloquear um valor latente que o Estado, enquanto accionista, não estava a capturar.

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