Mercados Financeiros

Brexit: dez anos, sete primeiros-ministros e uma economia que os economistas dizem ser 5% mais pequena

A 23 de junho de 2016, os britânicos votaram pela saída da União Europeia por uma margem estreita. O governo da época avisara que o resultado implicaria “um choque imediato e profundo” para a economia.

Uma década depois, o balanço económico do Brexit é amplamente negativo, e o custo acumulado supera largamente os benefícios, segundo os economistas. Mais visivelmente, o Brexit desencadeou uma instabilidade política sem precedentes: com a demissão de Keir Starmer esta segunda-feira, o Reino Unido terá em breve o seu sétimo primeiro-ministro desde o referendo.

Isolar o impacto do Brexit é difícil: a pandemia de Covid-19, as guerras na Ucrânia e no Irão e as tarifas de Donald Trump também pesaram sobre a economia britânica. Ainda assim, vários estudos chegaram a conclusões semelhantes. O mais citado, liderado pelo professor de Stanford Nicholas Bloom, estima que o Brexit reduziu o PIB britânico em até 8%. Outros economistas questionam a metodologia, mas concordam no essencial: a economia do Reino Unido é entre 4% e 6% mais pequena do que seria se o país tivesse ficado na UE. O Office for Budget Responsibility, o organismo fiscal independente britânico, estima que o Brexit reduzirá a produtividade de longo prazo do país em 4%.

O impacto levou tempo a materializar-se: o Reino Unido só saiu formalmente da UE no final de Janeiro de 2020, e as regras comerciais só mudaram verdadeiramente em 2021 — quatro anos e meio após o voto.

Comércio e investimento em queda

A maior parte do custo económico veio do aumento das barreiras comerciais com um mercado de 450 milhões de pessoas à porta de casa. O acordo comercial de 2021 manteve os direitos aduaneiros maioritariamente a zero, mas introduziu papelada extra, controlos fronteiriços e novas regulações. O resultado foi uma queda de cerca de 12% nas exportações britânicas para a UE e de 16% nas importações provenientes do bloco, segundo o Centre for European Reform. Os produtos agrícolas e alimentares foram os mais afectados, com uma quebra de quase 30%. Para alguns setores, como os produtores de marisco, as inspeções fronteiriças tornaram as exportações inviáveis.

O Brexit prometia liberdade para assinar novos acordos comerciais. O Reino Unido celebrou desde então 39 acordos com 72 países — mas nenhum compensou as perdas com a Europa, que continua a ser o maior parceiro comercial britânico, representando mais de 40% das trocas comerciais.

O investimento empresarial foi outro dos primeiros e maiores impactos: a incerteza das negociações prolongadas levou as empresas a congelar investimentos. O National Institute of Economic andSocial Research estima que a incerteza gerada pelo Brexit reduziu o investimento de longo prazo em cerca de 4%.

Londres resiste, mas com perdas

O sector financeiro tinha sido dos que mais alarme soou antes do referendo. Uma década depois, Londres mantém a sua posição como maior centro financeiro europeu — nenhuma outra cidade europeia se afirmou como destino alternativo. Mas a capital britânica perdeu partes significativas do negócio: parte da negociação de ações migrou para Amesterdão, a gestão de ativos para Dublin. “É como um furo lento num pneu”, descreveu Sarah Hall, geógrafa económica da Universidade de Cambridge. Em vez de uma transição abrupta, houve “uma série de relocalizações e, cada vez mais, novas vagas de emprego que não estão a ser criadas em Londres.”

Imigração: o efeito inverso

Um dos argumentos centrais dos defensores do Brexit era a redução da imigração. O efeito foi o oposto: houve uma grande entrada de pessoas provenientes de fora da UE, com diferentes requisitos de visto e diferentes competências, que reconfigurou o mercado de trabalho. Setores como hotelaria, processamento alimentar e saúde — que dependiam de trabalhadores europeus — debatem-se com custos acrescidos e falta de mão de obra.

O próximo capítulo

A ideia de reverter alguns dos efeitos do Brexit ganhou força à medida que a economia britânica luta com inflação persistente, dívida elevada e custos de financiamento altos. Andy Burnham, favorito para suceder a Starmer, já classificou o Brexit como “prejudicial”. O governo Starmer tentara um “reset” nas relações com Bruxelas, mas os progressos foram lentos — e uma nova cimeira, prevista para o próximo mês, foi adiada pelos europeus após a demissão do primeiro-ministro. O Partido Trabalhista exclui o regresso ao mercado único ou à união aduaneira.

“O custo mais importante do Brexit é o custo de oportunidade”, sintetizou Anton Spisak, do Centre for European Reform. “Tudo o que não aconteceu por causa do Brexit.”

Texto original do The New York Times

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