Mercados Financeiros

Alan Greenspan, o “maestro” da Reserva Federal, morre aos 100 anos

Alan Greenspan, uma das figuras mais influentes da política monetária global das últimas décadas, morreu esta segunda-feira, 22 de Junho, aos 100 anos, vítima de complicações associadas à doença de Parkinson.

A notícia foi confirmada pela mulher, a jornalista da NBC Andrea Mitchell, com quem era casado há 29 anos. “Alan faleceu esta manhã, em casa, aos 100 anos”, escreveu Mitchell em comunicado, descrevendo o antigo presidente da Reserva Federal como “um gigante” que ajudou a moldar a economia dos Estados Unidos sob administrações de diferentes partidos.

Greenspan liderou a Fed durante quase duas décadas, cumprindo cinco mandatos consecutivos entre 1987 e 2006, sob quatro presidentes — Ronald Reagan, George Bush, Bill Clinton e George W. Bush. A sua influência na política económica norte-americana é, porém, muito anterior, remontando pelo menos ao mandato de Gerald Ford (1974-1977), de quem foi conselheiro político e presidente do Conselho de Assessores Económicos. É por isso considerado um dos principais arquitetos da política económica dos EUA desde o final da Guerra Fria e durante a consolidação da globalização.

O maestro e os seus paradoxos

Nascido em 1926 em Nova Iorque, Greenspan revelou desde cedo vocação para a matemática, mas começou por estudar música na Juilliard School, onde tocou saxofone e clarinete antes de se dedicar à economia. Formou-se na Universidade de Nova Iorque e iniciou carreira em consultoria. A sua reputação de rigor intelectual e capacidade de navegação política — era republicano, mas manteve uma relação próxima com o democrata Bill Clinton — fez dele uma figura quase sem equivalente na história económica recente.

Era frequentemente descrito como um “rock star” da economia. A alcunha de “maestro” popularizou-se com o livro homónimo do jornalista Bob Woodward, e traduzia a admiração quase reverencial que os mercados lhe votavam. Supervisionou um dos mais longos ciclos de expansão económica dos EUA, entre 1991 e 2001, e a sua atuação no colapso bolsista de 1987 valeu-lhe reconhecimento duradouro.

Mas o legado ficou marcado por uma sombra longa: o apoio à desregulação financeira, que Greenspan defendeu com convicção ideológica durante décadas, foi apontado como um dos fatores que contribuíram para a crise financeira global de 2007-2008. Em 2008, numa audição no Congresso, o próprio admitiu ter descoberto uma “falha” no seu modelo de pensamento — um momento raro de autocrítica que abalou a sua reputação de infalibilidade. Para muitos, o homem que ajudou a criar um dos maiores períodos de criação de riqueza da história acabou também por semear as condições para o maior colapso financeiro desde a Grande Depressão.

Após sair da Fed, fundou uma empresa de consultoria e publicou vários livros, incluindo a autobiografia “A Era da Turbulência” (2007), em que refletiu sobre os líderes com quem trabalhou e os desafios económicos do seu tempo. Tinha 100 anos.

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