Keir Starmer anunciou esta segunda-feira a sua demissão como líder do Partido Trabalhista e primeiro-ministro do Reino Unido, cedendo à pressão dos seus próprios deputados após menos de dois anos no cargo.
“Ouvi a resposta do meu partido parlamentar a essa questão, e aceito essa resposta com boa graça”, declarou, num discurso em que reconheceu não ser “a pessoa mais indicada para liderar o Labour nas próximas eleições gerais”.
Na declaração, Starmer sublinhou que cada decisão que tomou foi guiada pelo interesse do país: “É por isso que me demito como líder do Partido Trabalhista.” O primeiro-ministro confirmou ter informado o Rei Carlos III da sua decisão durante a manhã. As candidaturas à sua sucessão na liderança do partido abrem a 9 de julho e encerram quando o Parlamento entrar em recesso de verão, a 16 de julho.
O caminho parece apontar para Andy Burnham, o popular antigo presidente da câmara de Manchester, que regressou ao Parlamento na semana passada depois de vencer a eleição intercalar de Makerfield com 54,8% dos votos. A vitória de Burnhamfuncionou como o gatilho final para a crise: mais de 100 deputados trabalhistas pediram publicamente a saída de Starmer, e vários ministros preparavam um ultimato caso o líder não anunciasse voluntariamente a saída.
O calendário de sucessão arranca a 9 de julho, com o prazo de candidaturas a encerrar a 16, data de início das férias parlamentares. Havendo mais de um candidato, a eleição decorre nas semanas seguintes, cabendo a escolha final aos militantes e sindicalistas afiliados ao partido. Quando o Parlamento retomar a 1 de setembro, o Reino Unido terá um novo primeiro-ministro — sem necessidade de eleições gerais, pela convenção constitucional britânica. Até lá, Starmer garante a continuidade do governo e representará o país na cimeira da NATO, em Ancara, a 7 e 8 de Julho.
Mais um capítulo de uma década de instabilidade
A demissão de Starmer torna o Reino Unido no país que mais primeiros-ministros consumiu na última década entre as grandes democracias ocidentais. Depois de David Cameron ter saído forçado pelo resultado do referendo ao Brexit em 2016, seguiram-se Theresa May, Boris Johnson e Liz Truss — todos afastados pelos próprios deputados conservadores — e Rishi Sunak, chumbado nas urnas em 2024. Starmer torna-se o sexto em dez anos, numa sucessão que levou o Guardian a ironizar que o Reino Unido, outrora a apontar o dedo à Itália pela instabilidade governativa, se tornou ele próprio sinónimo de turbulência política permanente.