Internacional

Depois de Trump, Putin. Xi Jinping tornou-se o homem com quem todos querem falar

Cinco dias depois de Donald Trump ter deixado Pequim, Vladimir Putin aterrou na capital chinesa para a sua 25.ª visita de Estado à China. A sequência não é acidental: ao receber os líderes de duas potências mundiais em poucos dias, Xi Jinping está a enviar uma mensagem clara sobre o lugar da China na nova ordem global, e sobre quem precisa de quem.

A diferença entre as duas visitas, porém, é reveladora. Trump chegou a Pequim como presidente da maior potência económica e militar do mundo, com uma agenda de acordos e uma narrativa de igualdade entre superpotências. Putin chega numa posição de relativa fragilidade: o exército russo continua estagnado na Ucrânia, a economia russa está sob pressão crescente, e a dependência de Moscovo em relação a Pequim aprofunda-se a cada mês que passa.

A relação entre Putin e Xi é das mais documentadas da diplomacia contemporânea. Os dois líderes reuniram-se mais de 40 vezes — muito além dos encontros de Xi com qualquer líder ocidental. Putin chama-lhe “meu querido amigo” e “melhor amigo do coração”. Mas por detrás da retórica de “parceria sem limites”, declarada semanas antes da invasão da Ucrânia em 2022, a assimetria económica é flagrante.

A China fornece mais de um terço das importações russas e absorve mais de um quarto das exportações de Moscovo. A Rússia representa apenas cerca de 4% do comércio internacional chinês — menos do que o Vietname.

Desde o início da invasão da Ucrânia, a China comprou mais de 367 mil milhões de dólares em combustíveis fósseis russos, segundo dados do Centro de Investigação sobre Energia e Ar Limpo. Pequim não cumpre as sanções ocidentais a Moscovo — e os dois países têm desenvolvido mecanismos de pagamento em rublos e yuan que contornam o predomínio do dólar. Segundo um académico russo, actualmente, uma transação entre um banco russo sancionado e uma conta na China demora agora menos de meia hora — em 2024 podia demorar semanas.

O gasoduto que o Irão pode desbloquear

O tema mais esperado desta cimeira é a energia. Há anos que a Rússia tenta convencer a China a avançar com o Power of Siberia 2 — um gasoduto de 2.600 quilómetros que ligaria os campos de extração siberianos ao noroeste da China, através da Mongólia, com capacidade para 50 mil milhões de metros cúbicos de gás por ano. Pequim tem resistido, preocupada com o preço e com o risco de dependência excessiva de um único fornecedor.

A guerra no Irão pode ter mudado esse cálculo. O bloqueio do Estreito de Ormuz — por onde transita uma parcela significativa das importações energéticas chinesas — tornou urgente para Pequim diversificar as rotas de abastecimento. A Rússia posicionou-se imediatamente como alternativa terrestre fiável, e as probabilidades de um acordo sobre o Power of Siberia 2 aumentaram de forma considerável.

Xi entre Trump e Putin

A sequência das visitas coloca Xi numa posição de poder invulgar. Ao receber Trump na semana passada — e ao mostrar-lhe os jardins privados de Zhongnanhai, onde poucos líderes estrangeiros entraram —, Xi estabeleceu a narrativa de igualdade entre as duas superpotências. Ao receber Putin dias depois, está a lembrar Washington que Pequim tem outras parcerias sólidas — e que os Estados Unidos não podem facilmente isolar a China se assim o entenderem.

Mas a China não está isenta de riscos neste equilíbrio. Avançar com o Power of Siberia 2 resolveria um problema energético imediato — mas aprofundaria uma dependência de Moscovo que Pequim tem tentado limitar. E o abraço a Putin tem custos: a China continua a ser alvo de críticas ocidentais pelo apoio económico à Rússia, e este mês o Reino Unido adicionou duas entidades chinesas à sua lista de sanções relacionadas com o conflito ucraniano.

Putin em casa, cada vez mais fragilizado

Para além da diplomacia, a visita a Pequim serve Putin como palco de prestígio num momento em que a sua imagem de homem forte começa a mostrar fissuras. A Ucrânia tem golpeado infraestruturas energéticas e instalações militares russas com dronese mísseis de longo alcance. A guerra está estagnada. A economia ressente-se. Esta semana, um deputado russo da Sibéria pediu publicamente a “conclusão rápida” do conflito, advertindo que a economia russa “não aguentará uma continuação prolongada da operação militar especial” — um reconhecimento raro, em público, da pressão que a guerra exerce sobre o país.

Putin publicou um vídeo na véspera da visita afirmando que as relações sino-russas atingiram “um nível sem precedentes”. O discurso é o habitual. A realidade por detrás dele é mais complicada: a Rússia precisa da China mais do que a China precisa da Rússia — e ambos os líderes o sabem.

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