Com mais de 70 deputados trabalhistas a exigirem publicamente a sua saída — num grupo parlamentar de 401 —, e após a pesada derrota nas eleições locais e regionais de 7 de Maio, o primeiro-ministro britânico enfrenta o que parece ser o colapso final da sua liderança. A reunião do Conselho de Ministros de terça-feira poderá ser a última com ele à cabeça do governo.
Na segunda-feira à noite, de acordo com o The Guardian, quatro ministros deslocaram-se à residência oficial do primeiro-ministro em Londres com uma mensagem directa: é hora de partir. Entre eles, figuras de peso como Yvette Cooper, dos Negócios Estrangeiros, e Shabana Mahmood, do Interior. A lógica é fria, mas partilhada por uma parte crescente do partido: só a saída de Starmer dará ao Labour tempo suficiente para se recompor antes que Nigel Farage chegue a Downing Street.
Horas antes, Starmer tentara virar o jogo. Num discurso matinal, prometeu resistir a qualquer manobra interna para o derrubar, disse entender a frustração dos eleitores e comprometeu-se a ouvi-los mais. Anunciou medidas concretas — a nacionalização da siderurgia, uma maior aproximação à União Europeia — numa tentativa de reinjetar energia na sua equipa e mostrar direção política. Não resultou. A visita nocturna dos ministros confirmou que o discurso foi recebido como o esforço desesperado que era.
O cenário mais provável não é uma demissão imediata, mas um calendário de saída até ao final do Verão. Isso permitiria uma eleição interna sem pressas, com candidatos a apresentarem-se e a disputarem a liderança — evitando a “coroação” sem debate que o partido teme tanto quanto teme Farage. Abriria ainda caminho a Andy Burnham, o trabalhista mais popular do país, para passar de presidente da câmara da Grande Manchester a deputado — condição necessária para concorrer à sucessão.
Há outros nomes em circulação. Wes Streeting, ministro da Saúde e figura da ala centrista, manobra há meses. Angela Rayner, que foi vice-primeira-ministra até enfrentar problemas fiscais, criticou Starmer por ter bloqueado em fevereiro a candidatura de Burnham ao parlamento numa eleição intercalar. Ed Miliband, ex-líder do partido entre 2010 e 2015 e atual ministro do Ambiente, é também referido como hipótese.
Os resultados que precipitaram tudo
As eleições de 7 de Maio foram um desastre em várias frentes. Em Inglaterra, o Labour perdeu mais de mil vereadores num total de cinco mil em disputa. No País de Gales, caiu do primeiro para o terceiro lugar, perdendo o poder que detinha desde a criação das instituições autonómicas — que passará agora para os nacionalistas galeses, com o Reform de Farage em segundo. Na Escócia, o SNP reteve o governo regional, que detém desde 2007, com o Labour em segundo e a direita radical a ganhar terreno.
O panorama é ainda mais revelador quando se olha para o conjunto do Reino Unido: três dos quatro países que o compõem são agora governados por forças que querem desfazê-lo — os nacionalistas escoceses, os galeses e os republicanos norte-irlandeses, estes sem eleições recentes, mas já o maior partido da Irlanda do Norte.
Entre os partidos de âmbito nacional, as urnas só sorriram a Farage, aos Verdes — sob a liderança populista de Zack Polanski, que conquistou o seu primeiro presidente de câmara diretamente eleito — e, em menor grau, aos Liberais Democratas. A rejeição dos dois partidos tradicionais de governo é inequívoca.
Sete primeiros-ministros em 10 anos
A confirmar-se, a queda de Starmer acontece menos de dois anos depois de ter vencido as legislativas com uma maioria folgadíssima — 411 dos 650 lugares no parlamento. O Reino Unido terá o seu sétimo primeiro-ministro em dez anos, depois de Cameron, May, Johnson, Truss, Sunak e Starmer. Quem lhe suceder na liderança do Labour será automaticamente primeiro-ministro, sem necessidade de eleições antecipadas — previstas apenas para 2029.
A ironia não escapou ao próprio Starmer. No discurso da manhã, pediu ao partido que não imitasse os conservadores na sua rotatividade em Downing Street. O aviso foi ignorado. E o Partido Conservador, hoje liderado por Kemi Badenoch, nem sequer aproveitou os apuros do rival: nas eleições de dia 7, perdeu mais de 500 lugares nas câmaras. A crise, afinal, não é só de Starmer. É do sistema político britânico.