Angola vai receber este ano cerca de 179 milhões de euros em dividendos das duas maiores posições que a Sonangol detém na bolsa de Lisboa: o BCP e a Galp.
Para a petrolífera estatal angolana, é o culminar de uma relação longa, desigual e nem sempre feliz com dois pesos pesados do mercado de capitais português.
O BCP: uma entrada cara, uma espera longa
A história da Sonangol no BCP começa em 2007, numa entrada que custou caro e durante anos não trouxe retorno. Até 2024, a petrolífera angolana tinha acumulado perdas superiores a dois mil milhões de euros na participação — uma posição que, durante quase duas décadas, foi mais símbolo de influência política do que investimento financeiro rentável.
A viragem começou com a recuperação do banco. Nos últimos cinco anos, o BCP valorizou mais de 600%, ainda longe dos máximos pré-crise financeira, mas num trajecto que começou a justificar a persistência accionista de Luanda.
Em 2024, o banco distribuiu 30% dos lucros em dividendos. No ano passado, subiu para metade. Este ano, a assembleia geral aprovou uma política ainda mais generosa: 90% do resultado líquido a reverter para os accionistas — 50% em dividendos directos e 40% num programa de recompra de acções avaliado em cerca de 407 milhões de euros, do qual a Sonangol, com 19,9% do capital, também beneficiará.
A relação com o BCP tem, no entanto, uma camada de incerteza permanente. Sempre que surgem sinais de que a Fosun — o outro grande accionista de referência, de origem chinesa — pode estar a preparar a saída do capital, as interrogações sobre o futuro da posição angolana regressam.
O que acontecer à Fosun inevitavelmente afectará o equilíbrio accionista do banco — e pode forçar Luanda a tomar uma decisão que, como sempre nestes casos, será essencialmente política, ou seja, a decisão sobre a participação no BCP pertence, em última análise, ao Presidente da República, João Lourenço.
A Galp: o investimento que sempre pagou
A relação da Sonangol com a Galp é de natureza diferente — mais estável, mais previsível e, desde o início, mais rentável. A petrolífera angolana controla cerca de 16,68% da Galp através de uma participação de 45% na Amorim Energia, e beneficia de uma política de dividendos que, desde a entrada em bolsa em Outubro de 2006, nunca foi interrompida.
Desde 2020, a Galp tem vindo a aumentar progressivamente o valor distribuído por acção. Este ano, o dividendo fixou-se em 0,64 euros por acção — o segundo valor mais elevado da história da empresa, apenas superado pelos 70 cêntimos pagos em 2019.
A política da Galp assenta num dividendo base com crescimento anual de 4% e num programa de recompra de ações ativado sempre que o rácio de dívida líquida sobre EBITDA se mantém abaixo de 1,0x. Atualmente, esse rácio ronda os 0,4x — confortavelmente abaixo do limiar — o que já levou a empresa a avançar com uma recompra de 250 milhões de euros em Março. A distribuição total aos accionistas está limitada a um terço dos fluxos de caixa operacionais ajustados, o que dá ao modelo uma disciplina financeira que o mercado tem recompensado.
O balanço angolano
Visto de Luanda, o quadro de 2026 é o mais favorável em muitos anos. A Galp paga de forma consistente e crescente. O BCP, depois de uma geração de decepções, transformou-se numa máquina de distribuição de capital. Os 179 milhões que chegam a Angola este ano não apagam as perdas acumuladas na participação bancária — mas são um sinal de que a paciência começou finalmente a ser recompensada.
A questão que fica em aberto é política, não financeira: quanto tempo mais Luanda quer — ou pode — manter estas posições? E em que condições estaria disposta a sair?