A OPEP+ reuniu-se, decidiu aumentar a produção e seguiu em frente — como se os Emirados Árabes Unidos nunca tivessem saído. O problema é que o aumento de 188.000 barris por dia aprovado para Junho esbarra num obstáculo que nenhuma reunião resolve: o Estreito de Ormuz continua fechado, e com ele, a possibilidade de o crude do Golfo chegar ao mercado.
O mês de Maio de 2026 ficará marcado na história do petróleo. Pela primeira vez em quase seis décadas, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) perdeu um dos seus membros do Golfo Pérsico: os Emirados Árabes Unidos saíram a 1 de Maio, e com eles saiu também uma fatia considerável da credibilidade do cartel enquanto mecanismo de coordenação global. No mesmo dia, a sua petrolífera nacional, a ADNOC, anunciava um investimento de 55 mil milhões de dólares em novos projectos para 2026-2028 — um sinal inequívoco de que Abu Dhabi não saiu para produzir menos.
Sete dos restantes membros da aliança OPEP+ — Arábia Saudita, Rússia, Iraque, Kuwait, Cazaquistão, Argélia e Omã — aprovaram este domingo o aumento previsto de 188.000 barris por dia para o mês de Junho, como se nada tivesse acontecido. A declaração conjunta não fez qualquer referência aos Emirados Árabes Unidos. Mais do que a saída de um membro relevante, o movimento levanta dúvidas sobre a capacidade do cartel de manter coesão num ambiente internacional cada vez mais fragmentado.
Na prática, o aumento anunciado dificilmente se traduzirá em produção adicional: as principais capacidades não utilizadas da OPEP+ concentram-se nos países do Golfo, cujas exportações estão bloqueadas pelo encerramento do Estreito de Ormuz, no contexto da guerra entre o Irão e os Estados Unidos. Os ataques às infraestruturas energéticas nos países do Golfo e o bloqueio do Estreito de Ormuz fizeram com que, a cada cinco dias, faltem 100 milhões de barris de petróleo no mercado mundial, com impactos brutais no custo dos combustíveis.
Um cartel em erosão
A saída dos Emirados não é um caso isolado — é o sinal mais recente de uma tendência que vem corroendo a OPEP há anos. Outros produtores de petróleo já deixaram a OPEP+ nos últimos anos: o Catar em 2019, o Equador em 2020 e Angola em 2023. Cada saída foi apresentada como uma decisão soberana motivada por interesses nacionais, em conjunto, desenham o retrato de uma organização que perdeu a capacidade de alinhar os seus membros.
Os Emirados detêm cinco dos grandes campos produtores de petróleo do Golfo Pérsico e têm capacidade para aumentar significativamente a sua produção acima dos quatro milhões de barris por dia a que estavam limitados pelas quotas sauditas. Livres dessas restrições, e com o barril Brent acima dos 100 dólares desde o início do conflito no Médio Oriente, a saída representa uma vitória estratégica para Abu Dhabi — e, segundo analistas, também para Washington, que há muito pressiona por uma maior oferta no mercado.
Angola: o precedente que ninguém quer citar
Angola foi pioneira neste movimento de dissidência africana. Em Dezembro de 2023, após 16 anos de adesão, Luanda saiu da OPEP alegando que as quotas impostas prejudicavam a sua economia. O petróleo e o gás natural correspondem a cerca de 90% do total das exportações angolanas — uma dependência que torna cada oscilação nos preços globais uma questão de sobrevivência orçamental.
Mas dois anos depois, o balanço é amargo. Depois da saída, no início de 2024, a produção média subiu apenas para cerca de 1,13 milhões de barris por dia — um aumento marginal de aproximadamente 3%, insuficiente para justificar o argumento de que a organização impedia Angola de crescer. As estimativas oficiais apontam para uma estabilização entre 1,10 e 1,12 milhões de barris por dia até 2027, independentemente de quotas. A limitação é estrutural e interna, não imposta pela OPEP.
Pior: em Julho de 2025, Angola produziu menos de um milhão de barris diários pela primeira vez desde que saiu da OPEP, num momento em que o preço de referência do petróleo estava abaixo dos 70 dólares previstos no orçamento. O resultado foi uma queda de 13,6% nas receitas de exportação face ao trimestre homólogo anterior.
O que muda agora para Angola
Com o Brent acima dos 100 dólares — impulsionado pelo conflito no Golfo —, Angola beneficia temporariamente de preços elevados. Mas está fora da mesa onde as decisões são tomadas. A saída não alterou a posição de Angola como price taker: continua dependente das decisões da OPEP+ sobre cortes ou aumentos de oferta, apenas sem estar presente no processo.
A fragmentação do cartel, acelerada agora pela saída dos Emirados, tende a aumentar a volatilidade dos preços — precisamente o risco que Angola menos pode tolerar, dado que o Orçamento de 2026 foi construído com base num preço de referência do petróleo que já estava sob pressão. No médio e longo prazo, se os Emirados aumentarem significativamente a produção, isso poderá pressionar os preços em baixa, por via de uma maior oferta no mercado global. Para uma economia que depende do crude para financiar mais de metade da despesa pública, esse cenário é uma ameaça concreta.
O que a turbulência na OPEP torna mais urgente, paradoxalmente, é aquilo que Angola diz querer fazer há anos — e ainda não conseguiu: diversificar a economia antes que o petróleo deixe de ser a resposta a todas as perguntas.