O Banco Nacional de Angola (BNA) voltou a conceder financiamento directo ao Estado no início de 2026, numa altura em que as reservas internacionais do país registaram uma queda significativa no primeiro trimestre do ano.
O banco central emprestou, só em Janeiro, cerca de 479,1 mil milhões de kwanzas ao Governo, o equivalente a aproximadamente 525 milhões de dólares. No mesmo período, as reservas internacionais líquidas recuaram 477 milhões de dólares, passando de 15,9 mil milhões no final de 2025 para 15,4 mil milhões de dólares no fim de Março.
Os números sugerem uma aceleração relevante do recurso ao financiamento do banco central. Ao longo de todo o ano de 2025, o BNA terá emprestado ao Estado cerca de 1,64 mil milhões de dólares, o que significa que, em apenas um mês de 2026, já foi mobilizada uma fatia expressiva desse montante.
Esta evolução reforça a percepção de um maior recurso do Executivo ao banco central como fonte de liquidez de curto prazo, numa conjuntura de pressão sobre as contas externas.
A leitura dominante nas análises recentes aponta para uma relação directa entre o aumento do financiamento ao Tesouro e a redução das reservas internacionais sob gestão do BNA. Embora essa correlação não constitua, por si só, prova de uma crise iminente, evidencia uma vulnerabilidade estrutural da economia angolana.
A redução das reservas em quase 500 milhões de dólares num único trimestre contrasta com o nível registado em dezembro de 2025, indicando um ritmo de deterioração relativamente rápido no início do ano.
O financiamento do Estado pelo banco central é um tema sensível, a lei orgânica do BNA estabelece restrições a este tipo de crédito, ainda que preveja exceções dentro de limites anuais definidos.
Em 2025, o Governo regularizou parte da dívida ao BNA através da emissão de títulos de dívida pública, uma operação que alimentou o debate sobre o grau de independência da autoridade monetária.
A evolução recente reforça uma tendência já observada em momentos anteriores: sempre que aumenta o recurso do Estado ao financiamento do banco central, a margem de proteção externa — medida pelas reservas internacionais — tende a diminuir.
Este padrão não indica necessariamente uma crise, mas sublinha a exposição da economia a choques externos e a dependência de mecanismos internos de financiamento.