A luta pelo controlo da Warner Bros. Discovery transformou-se numa das mais intensas disputas empresariais da história recente de Hollywood, envolvendo gigantes do streaming, multimilionários da tecnologia, fundos soberanos do Médio Oriente e figuras próximas de DonaldTrump.
Em causa está o futuro de um dos maiores grupos de entretenimento do mundo, detentor de marcas icónicas como a Warner Bros., a HBO e a CNN, responsável por clássicos do cinema como Casablanca e sucessos de bilheteira como Harry Potter, além de séries emblemáticas como TheSopranos e Succession.
Após a fusão, em 2022, entre a WarnerMedia e a Discovery, o grupo passou a enfrentar uma quebra de audiências e receitas no segmento da televisão por cabo. Em resposta, o director-executivo David Zaslav anunciou, em Junho, a divisão da empresa em duas: uma dedicada ao cinema, televisão e streaming, e outra focada nas redes de cabo.
Antes de a cisão avançar, David Ellison, CEO da Skydance e recentemente responsável pela aquisição da Paramount, apresentou uma proposta para comprar a Warner Bros. Discovery na totalidade. Filho do fundador da Oracle, LarryEllison, o jovem magnata tentou convencer Zaslav em encontros privados e sucessivas melhorias da oferta, mas sem sucesso.
O impasse abriu caminho à entrada de outros concorrentes. No início de Dezembro, a Netflix surpreendeu o mercado ao anunciar a aquisição dos activos de cinema e streaming da WarnerBros. Discovery por cerca de 72 mil milhões de dólares. “A Warner Bros. definiu o último século do entretenimento, e juntos podemos definir o próximo”, afirmou Ted Sarandos, co-CEO da Netflix.
Apesar da derrota inicial, a Paramount reagiu com uma oferta hostil, propondo 30 dólares por acção, totalmente em dinheiro, para adquirir a totalidade do grupo. A proposta conta com financiamento do pai de Ellison, de Jared Kushner — genro de Donald Trump — e de fundos soberanos da Arábia Saudita, do Qatar e de Abu Dhabi.
A estrutura financeira da oferta levantou fortes reservas, tanto por parte da Warner Bros. Discovery como de responsáveis políticos norte-americanos. Dois congressistas democratas alertaram para “sérias preocupações de segurança nacional”, sublinhando a influência cultural da empresa e o acesso a dados sensíveis de milhões de cidadãos norte-americanos.
Apesar de os investidores estrangeiros terem aceitado abdicar de qualquer papel na governação da empresa, o conselho da Warner Bros. Discovery manteve o apoio ao acordo com a Netflix, anunciado um dia depois de David Ellison ter enviado mensagens pessoais a Zaslav a insistir numa reaproximação.
Caso avance, o negócio permitirá à Netflix reforçar significativamente o seu catálogo cinematográfico e consolidar a sua posição dominante no streaming, onde já soma cerca de 300 milhões de assinantes. A operação levanta, contudo, receios sobre maior concentração no sector e sobre o impacto no futuro das salas de cinema, uma vez que a Netflix privilegia a distribuição directa em streaming.
O conselho de administração da Warner Bros. Discovery anunciou que irá analisar a proposta concorrente da Paramount e emitir uma recomendação até 19 de Dezembro. Até lá, mantém o seu apoio ao acordo com a Netflix.