A sessão contou com a parceria do Centro de Estudos de Ciências Jurídico-Económicas e Sociais (CEJES) da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto e da Agência de Investimento Privado e Promoção das Exportações de Angola (AIPEX), e foi também marcada pela presença da Primeira-Dama, Ana Dias Lourenço.
O economista e ex-secretário-geral adjunto da ONU abriu o ciclo de reflexão ‘Pensar Global’, em Luanda, com um diagnóstico duro sobre os modelos de desenvolvimento africanos: o problema não é o continente — são as políticas dos seus governos.
Carlos Lopes foi directo no diagnóstico: África tem o sector primário “mais atrasado do mundo”, com níveis de produtividade que nenhum outro continente tem, e a responsabilidade por isso não é geográfica nem histórica — é política.
“Um país como o Vietname, há 15 anos, não produzia café, e 15 anos depois produz mais café que toda a África. O café é originário da África”, disse o economista, professor na Mandela School of Public Governance da Universidade de Cape Town, na sessão inaugural do espaço de reflexão ‘Pensar Global’.
O exemplo vietnamita é, para Lopes, a demonstração mais clara de que o atraso africano não é inevitável. O que aconteceu no país asiático foi a implementação de políticas deliberadas de incentivo e transformação estrutural — exactamente o que, na sua análise, os Estados africanos têm falhado em fazer com “clareza e estratégia”.
60% da população sem transformação de vida
O problema tem consequências directas no quotidiano de centenas de milhões de pessoas. “60% da população africana depende das actividades do sector primário — agricultura, pescas. Se não houver produtividade nesse sector, a maioria da população não está a ser objecto de transformação das suas vidas. É isso que está a acontecer”, afirmou.
Para Lopes, a transformação estrutural passa por redirecionar progressivamente as actividades dos sectores menos produtivos para os mais produtivos — não por abandono da agricultura, mas por modernização e política de incentivos que elevem o valor gerado por cada trabalhador.
África exporta capital apesar de ser o continente menos desenvolvido
O economista deixou ainda um paradoxo que considerou difícil de ignorar: apesar de ser o continente menos desenvolvido, África é um exportador líquido de capital. “Quando se faz o cômputo, todo o capital que entra, das várias formas, e todo o que sai, somos um exportador nato de capital. Como é possível explicar isto? Por causa das regras e das condições que prevalecem no sistema internacional”, disse Carlos Lopes.