Em Dezembro deste ano, cairá definitivamente o pano para Warren Buffett. O investidor que, durante seis décadas, liderou a BerkshireHathaway e se tornou uma das figuras mais influentes dos mercados financeiros mundiais, despede-se do palco.
A sua presença na conferência anual com accionistas, não voltará a repetir-se. Aos 95 anos, Buffett deixa a empresa com mais dinheiro em caixa e em Bilhetes do Tesouro norte-americanos do que investido em acções.
No final do terceiro trimestre, a Berkshire detinha cerca de 325,6 mil milhões de euros em liquidez e títulos do Tesouro de curto prazo, o valor mais elevado de sempre na história da holding. Este montante ultrapassa largamente os 244 mil milhões de euros investidos em acções, revelando uma postura defensiva num momento em que muitos investidores globais se afastam do risco. É neste contexto que o canadiano Greg Abel, atual vice-presidente e já designado sucessor, assume o comando da empresa em 2026, aos 63 anos.
Nos quatro meses seguintes ao anúncio da retirada de Buffett, as acções da Berkshire caíram quase 15%, reflectindo a apreensão em torno do fim de uma era. Entretanto, o sentimento recuperou e, desde o início do ano, o título acumula uma valorização de 11%.
Conhecido como Oráculo de Omaha, Buffettconstruiu a carreira evitando o sector tecnológico — com a excepção da Apple, que sempre analisou como uma produtora de bens de consumo. Por isso, quando a Berkshire revelou recentemente a compra de 18 milhões de acções da Alphabet, avaliadas em 4,3 mil milhões de dólares, o mercado reagiu de imediato: os títulos da dona do Google subiram mais de 3%.
A aposta reforça a narrativa de uma Berkshiremais aberta à tecnologia e à inteligência artificial na fase pós-Buffett. Mas também levanta dúvidas: o investidor sempre privilegiou empresas subavaliadas, e a compra surge num momento em que se volta a falar em bolha tecnológica, impulsionada pela IA.
Entretanto, a Berkshire tem vindo a reduzir a posição na Apple, vendendo mais de 900 milhões de ações em três trimestres e passando para 238 milhões de títulos.
Na sua derradeira carta anual, Buffett regressa à Omaha da sua infância e constrói uma espécie de mapa emocional da cidade e das figuras que marcaram a sua vida — de Charlie Munger a Don Keough. A palavra “sorte” surge 12 vezes, num reconhecimento de que a sua longevidade e o seu sucesso foram, em grande parte, fruto de circunstâncias impossíveis de controlar.
Buffett anunciou também a aceleração das doações às fundações dos seus quatro filhos, distribuindo mais de 1,3 mil milhões de dólares como parte do processo de partilha da herança.No texto de despedida, Buffett confirma que Greg Abel assumirá as rédeas no final do ano: “É um excelente gestor, um trabalhador incansável e um comunicador honesto”, escreve, desejando-lhe “um longo mandato”.
A frase final, dirigida aos acionistas, é um conselho que resume a filosofia de vida de quem moldou o investimento moderno: “Escolha os seus heróis com cuidado e depois imite-os.”