Opinião

Jovens e política: desinteresse ou apenas desilusão?

Há muito tempo que se repete a ideia de que “os jovens não se interessam por política”. Porém, antes de aceitarmos essa frase como verdade, vale a pena questionar: será realmente desinteresse…ou apenas profunda desilusão?

A juventude angolana, tal como a do mundo, não está indiferente à política. Pelo contrário, é ativa quando reclama da falta de oportunidades, dos salários insuficientes, da ausência de incentivos, da desigualdade ou das promessas que nunca se concretizam. Participa quando protesta nas redes sociais, quando questiona políticas públicas ou quando denuncia e repreende injustiças. Onde ela participa menos é nos espaços formais da política, por exemplo: partidos, assembleias, campanhas, debates públicos. E isto não significa apatia — significa desconfiança.

Essa desconfiança não surge do nada. Muitos jovens cresceram a perceber a política como um espaço distante das suas realidades, incapaz de responder aos seus desafios urgentes: a falta de emprego, educação de qualidade, mobilidade social, segurança e oportunidades concretas. Em Angola, apesar de não se ter dados estatísticos reais e fidedignos sobre a participação política de jovens angolanos, conseguimos perceber que a juventude angolana não participa suficientemente em eleições legislativas.

Ou seja, entre os jovens, a abstenção não é sinal de desinteresse — é sinal de frustração e decepção.

A distância entre as necessidades urgentes da juventude e as decisões políticas aumenta cada vez mais, causada pela reduzida representatividade jovem nos cargos de poder. Para muitos, os discursos permanecem presos a estratégias antigas, desconectadas de problemas modernos que exigem soluções inovadoras e disruptivas. Assim, a política institucional acaba por parecer um espaço fechado, incapaz de dialogar com uma geração que procura agilidade, transparência e impacto real.

Mas isso não significa que os jovens estejam ausentes. Eles apenas participam noutros lugares. Basta olharmos para as redes sociais para percebermos aonde a juventude angolana se mobiliza: nos debates online, movimentos digitais, campanhas de sensibilização e discussões públicas que moldam o presente e pressionam o futuro. Esta geração exige mais. Exige coerência, acção, e resultados — e não apenas discursos retóricos.

Assim como Maquiavel, que lembrava que a política não deve basear-se apenas na moralidade tradicional, mas em ações eficazes. Talvez seja isso que a juventude espera: menos discursos, mais eficácia; menos promessas, mais respostas, menos distância, mais participação real e próxima.

Se queremos uma sociedade jovem mais consciente e envolvida, não basta pedirmos para que ela “se interesse pela política”. É preciso abrirmos espaço para que esta geração tenha voz ativa, para que se reconheça nas decisões e nos que decidem. Até porque, de certa forma, esta geração se interessa por política, só que não de uma forma consistente. Só assim será possível reconstruir a confiança dos jovens, e transformar a desilusão em participação.

Por: Lígia Luther 

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