As economias africanas, nomeadamente a angolana, devem prosseguir o caminho da diversificação e “pôr a casa em ordem”, recomendou a directora-geral do FMI no final de uma visita a Luanda, antes de partir para a Cimeira do G20.
“A nossa principal recomendação é: ponham a casa em ordem”, afirmou Kristalina Georgieva, que chegou a Angola na passada quarta-feira e que, entretanto, deixou o país rumo a Joanesburgo, na África do Sul, para participar na Cimeira do G20.
Falando concretamente de Angola, a directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) destacou a necessidade de “boas políticas”, maior transparência e instituições sólidas capazes de criar confiança nos investidores. “É crítico ter políticas e instituições fortes, sempre. Num mundo de mudanças rápidas e transformações massivas — geopolíticas, tecnológicas, choques climáticos — é ainda mais importante que os países sejam fortes”, reforçou Georgieva.
Para isso, advertiu, os governos precisam de aumentar as receitas, alargar a base tributária e cobrar impostos de forma eficaz, além de garantir uma despesa pública de qualidade. Estes factores, disse, são essenciais para financiar a educação, eliminar barreiras à iniciativa privada e sustentar o crescimento económico.
A responsável lembrou ainda que os choques mundiais recentes — da pandemia à guerra na Ucrânia, da inflação às taxas de juro, passando pelas crescentes tensões comerciais — afectaram as economias africanas, que, apesar de tudo, se revelaram mais resilientes do que o esperado.
Kristalina Georgieva classificou como “impressionante” a resiliência económica do continente, comparando o crescimento global estimado — 3,2% este ano e 3,1% em 2026 — com as projecções para a África Subsaariana, de 4,1% em 2025 e 4,4% no próximo ano.
“Achámos que podia ter sido muito pior e, quando vimos que foi tão resiliente, encontrámos duas razões: em muitos países, incluindo Angola, o governo retirou-se de áreas da actividade económica onde não pertence. O sector privado é mais ágil e adaptável. Quando surgem mudanças, o sector privado reage rapidamente”, explicou.
A segunda razão, acrescentou, está relacionada com “boas políticas, boas instituições e, acima de tudo, transparência na gestão económica e na forma como o dinheiro público é gasto”, defendendo que estes elementos serão ainda mais necessários no futuro.
Georgieva alertou, no entanto, que a resiliência não deve ser dada como garantida, devido às vulnerabilidades existentes e ao facto de o actual ritmo de crescimento não responder às aspirações das populações, sobretudo no que toca ao emprego.
A directora-geral do FMI salientou também que as economias mais dependentes de recursos naturais — como Angola, altamente dependente do petróleo — são mais vulneráveis a choques globais, enfrentando variações de preços que geram incerteza e instabilidade. Além disso, frisou, as indústrias ligadas aos recursos naturais “não criam muitos empregos” e não absorvem a procura laboral, especialmente de jovens. “Por isso, estamos muito interessados na diversificação”, afirmou.
A caminho da Cimeira do G20 — que reúne as 19 maiores economias do mundo, mais a União Africana e a União Europeia — Kristalina Georgieva lançou ainda um apelo para que os temas africanos ganhem mais espaço no debate global, começando pelo investimento necessário para sustentar o crescimento. “É preciso construir uma ponte entre o mundo rico, que está a envelhecer, e a África, que tem uma população jovem, para que o capital possa chegar ao continente africano”, disse, lembrando que 11 das 20 economias que mais crescem no mundo estão na África Subsaariana.
A responsável chamou também a atenção para o impacto das alterações climáticas, que estão a afetar severamente várias regiões africanas, sublinhando que a adaptação exige apoio da comunidade internacional.
Quanto ao peso da dívida, afirmou que os níveis elevados e os custos do serviço da dívida continuam a preocupar o Fundo, que está empenhado em “apoiar os países africanos a reestruturar a dívida quando necessário, como no Gana e na Zâmbia, ou a geri-la melhor, como é o caso em Angola”, afirmou Georgieva, em Luanda, em entrevista à agência Lusa.