A venda, anunciada ontem, quinta-feira, dia 3, da participação de 33,35% do Banco de Fomento Angola (BFA) pelo Banco BPI à Congolian Financial SA, ligada ao Grupo Carrinho, terá consequências que ultrapassam a estrutura accionista do banco e poderão fazer-se sentir no mercado de capitais angolano.
Embora a operação seja uma transacção entre accionistas e não constitua, por si só, uma operação realizada na BODIVA, a mudança poderá influenciar a liquidez, a formação de preços e o interesse dos investidores pelas acções do BFA, que estão admitidas à negociação na bolsa angolana.
O BFA foi uma das instituições que marcou a abertura do capital das grandes empresas angolanas ao mercado accionista. O prospecto da oferta pública de venda realizada em 2025 contemplou a admissão à negociação, na BODIVA, da totalidade das 15 milhões de acções representativas do capital social do banco.
Um dos principais efeitos da entrada da Congolian Financial poderá estar relacionado com o chamado free float, ou seja, a parcela de acções efectivamente disponível para negociação no mercado.
Ao assumir uma participação de 33,35%, o Grupo Carrinho passa a deter uma posição estratégica de grande dimensão. Caso mantenha essa participação, uma parte substancial do capital do BFA permanecerá concentrada nas mãos de accionistas de referência, limitando a quantidade de títulos que circulam livremente entre investidores.
Esta situação poderá reduzir a liquidez do título, sobretudo para operações de maior dimensão, embora uma maior atenção dos investidores ao BFA possa compensar parcialmente esse efeito.
Unitel e Grupo Carrinho no centro das atenções
A nova configuração coloca a Unitel e a Congolian Financial no centro da estrutura accionista do banco.
A Unitel mantém uma participação de 36,9%, enquanto a Congolian Financial passará a deter 33,35%, caso a operação seja concluída nos termos anunciados.
A proximidade entre as duas posições poderá tornar particularmente relevantes as decisões dos restantes accionistas, sobretudo em matérias que exijam maiorias qualificadas ou em futuras alterações à estrutura de capital.
Para a BODIVA, este cenário representa um desafio adicional: assegurar que o mercado dispõe de informação atempada e suficiente sobre eventuais alterações de participações qualificadas, operações relevantes e decisões que possam afectar a formação do preço das acções.
Mais importância para o mercado accionista
A operação ocorre numa altura de crescimento da actividade do mercado accionista angolano. Após a entrada do BFA em bolsa, a BODIVA recebeu em 2026 a admissão das acções da Unitel. A oferta pública de venda de 15% da operadora registou uma procura superior à oferta, com uma cobertura de 120,72%, tendo sido colocados 7,5 milhões de títulos por 300,3 mil milhões de kwanzas.
A entrada de empresas de grande dimensão tem contribuído para aumentar a profundidade do mercado e ampliar o número de investidores expostos a acções de empresas angolanas.
Neste contexto, qualquer alteração relevante na estrutura accionista do BFA ganha importância para a BODIVA, não apenas pelo peso da instituição no sistema financeiro, mas também pelo seu potencial de gerar novas operações no mercado.
Possibilidade de novas movimentações
A aquisição pela Congolian Financial/ Grupo Carrinho poderá ainda ser o primeiro capítulo de uma nova fase de movimentação accionista.
Se o Grupo Carrinho decidir reforçar ou alienar parte da sua posição no futuro, essas operações poderão afectar directamente o volume transaccionado e o preço das acções do BFA.
O mesmo poderá acontecer caso a Unitel decida alterar a sua participação. A existência de dois accionistas com posições superiores a 30% torna qualquer eventual movimentação de capital potencialmente relevante para o mercado.
Um teste à maturidade da BODIVA
Para a bolsa angolana, a mudança accionista do BFA constitui, por isso, mais do que uma alteração na composição do capital de uma empresa cotada.
É também um teste à capacidade do mercado de acompanhar operações de grande dimensão, assegurar transparência na divulgação de informação e proporcionar liquidez aos investidores.
A BODIVA tem vindo a ganhar importância como plataforma de financiamento e de reorganização do capital das grandes empresas angolanas. A entrada em bolsa de empresas como o BFA e a Unitel demonstra essa evolução.
A questão que agora se coloca é saber se a concentração de participações estratégicas no BFA conduzirá a maior estabilidade accionista ou a menor liquidez do título.
Para os investidores, essa será uma das principais variáveis a acompanhar após a conclusão da operação. Para a BODIVA, o desafio será garantir que o aumento da importância das grandes empresas cotadas seja acompanhado por um mercado suficientemente líquido, transparente e atractivo para novos investidores.