Mercados Financeiros

Taxas de juro das obrigações disparam para máximos de décadas em todo o mundo

As taxas de juro (yields) da dívida soberana atingiram esta semana os níveis mais elevados em décadas em várias das maiores economias do mundo, numa venda generalizada de obrigações motivada pela combinação de receios sobre inflação, níveis de endividamento e a perspectiva de bancos centrais obrigados a subir juros. O episódio mais simbólico deste movimento ocorreu no Japão, cuja taxa de juro das obrigações há 10 anos ultrapassou a fasquia dos 3% pela primeira vez desde 1996 — mas o fenómeno está longe de se limitar a Tóquio.

A subida das taxas de juro japonesas foi apenas o epicentro mais visível de um movimento verdadeiramente global. Nos Estados Unidos, a taxa das obrigações do Tesouro a 10 anos aproximou-se dos 4,79%, o valor mais elevado desde Janeiro do ano passado. Na Alemanha, referência para a zona euro, a taxa a 10 anos subiu para cerca de 3,34-3,35%, o nível mais alto desde 2011. No Reino Unido, as taxas dispararam dez pontos base, e a Austrália registou a subida mais acentuada em cinco meses. Um indicador da Bloomberg que agrega as taxas de juro da dívida pública mundial atingiu 3,72%, o valor mais elevado desde meados de 2008 — ou seja, desde a véspera da crise financeira global.

Analistas do Deutsche Bank resumiram bem a dimensão do fenómeno num alerta enviado a investidores: esta venda maciça de obrigações “tem sido um fenómeno global”, e não um episódio isolado a um único país ou mercado.

Três motores em simultâneo: petróleo, inflação e bancos centrais

Por trás desta subida generalizada estão três factores que se reforçam mutuamente. Em primeiro lugar, a reactivação do conflito no Golfo Pérsico — depois de forças norte-americanas terem atacado uma ilha no Estreito de Ormuz, com o Irão a responder com ataques aos Emirados Árabes Unidos e à Jordânia — fez subir os preços do petróleo pelo segundo dia consecutivo, alimentando receios de inflação importada em praticamente todas as economias importadoras de energia.

Em segundo lugar, o presidente da Reserva Federal norte-americana, Kevin Warsh, adoptou um tom mais restritivo do que o esperado no seu discurso em Jackson Hole, na semana passada, fazendo disparar a probabilidade atribuída pelos mercados a uma subida das taxas de juro dos Estados Unidos já na reunião de Setembro — um sinal que se repercutiu directamente nas taxas de juro da dívida soberana em todo o mundo, uma vez que os títulos do Tesouro norte-americano funcionam como referência para grande parte dos mercados de obrigações internacionais.

Em terceiro lugar, os níveis de endividamento dos países mais ricos do mundo não mostram sinais de abrandar tão cedo — pelo contrário: a dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou já os 40 biliões de dólares, e o mercado obrigacionista está também sob pressão adicional devido a uma vaga de emissões de dívida por parte das grandes tecnológicas (“hyperscalers”), que têm vindo a angariar capital de forma agressiva para financiar o boom de investimento em inteligência artificial.

O Japão como símbolo da mudança de era

O caso japonês ilustra de forma particularmente clara a dimensão desta transformação nos mercados de dívida. Depois de décadas com taxas de juro próximas de zero, a taxa de referência das obrigações japonesas a 10 anos mais do que triplicou em apenas dois anos, e praticamente duplicou desde que a primeira-ministra Sanae Takaichi assumiu funções, em Outubro do ano passado, com uma agenda de expansão orçamental que investidores mais cautelosos consideram arriscada. O Governo japonês está a preparar um vasto pacote de estímulo económico e um aumento significativo da despesa em defesa, associados a cortes fiscais mais modestos do que inicialmente previsto — uma combinação que tem alimentado receios sobre a sustentabilidade das contas públicas japonesas, num país cuja dívida pública já ultrapassa os 200% do Produto Interno Bruto.

A subida das taxas de juro não se limitou à maturidade a 10 anos: a taxa a cinco anos atingiu um máximo histórico de 2,26%, a taxa a dois anos chegou a um pico de 31 anos, nos 1,795%, a obrigação a 20 anos tocou os 3,885% — um nível não visto desde 1996 —, e a de 30 anos aproximou-se de um fecho recorde de 4,18%. Uma subida deste tipo tem implicações práticas directas: o Governo japonês tinha calculado o orçamento do ano fiscal de 2026 assumindo uma taxa de juro de longo prazo de 3%, pelo que uma subida sustentada acima desse valor implica um agravamento imediato do custo do serviço da dívida pública japonesa.

A pressão sobre o Banco do Japão para subir juros também não vem apenas de dentro do país: à margem da reunião de ministros das Finanças do G20, em Asheville, na Carolina do Norte, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, terá pressionado directamente a primeira-ministra Takaichi e o governador do Banco do Japão, Kazuo Ueda, para acelerarem o ritmo de subida das taxas de juro. Depois de subir a sua taxa directora de 0,5% para 0,75% em Dezembro passado, e para 1% em Junho, o Banco do Japão reúne-se a 17 e 18 de Setembro, com os mercados a atribuírem entre 80% e 90% de probabilidade a uma nova subida, para 1,25% — o que representaria um aumento de 0,75 pontos percentuais na taxa directora japonesa em apenas nove meses.

Um mercado obrigacionista “a regressar à normalidade” — mas de forma abrupta

Para alguns analistas, esta subida das taxas de juro japonesas representa também o fim simbólico de uma era prolongada de juros artificialmente baixos, mais do que uma anomalia preocupante. A obrigação japonesa a 10 anos não tocava os 3% desde Setembro de 1996 — a última vez que esse nível foi atingido, Bill Clinton cumpria o seu primeiro mandato como Presidente dos Estados Unidos. O ritmo desta subida é, no entanto, o que mais surpreende os mercados: a taxa estava em metade deste valor há cerca de um ano, o que revela a velocidade com que a percepção dos investidores sobre o risco da dívida soberana japonesa — durante décadas considerada um dos activos mais seguros e estáveis do mundo — tem vindo a mudar.

Este movimento representa também um teste à forma como os mercados internacionais avaliam o risco de dívida pública em geral: se mesmo um mercado obrigacionista historicamente tão estável como o japonês pode registar uma subida tão acentuada e rápida das suas taxas de juro de referência, cresce a pressão sobre investidores em todo o mundo para reavaliarem os riscos associados à dívida soberana de outras grandes economias — muitas das quais enfrentam, tal como o Japão, uma combinação semelhante de inflação persistente, défices orçamentais elevados e bancos centrais sob pressão para apertar a política monetária.

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