Angola prepara-se para entrar no restrito mercado mundial de produção de nióbio, um mineral estratégico utilizado sobretudo na indústria siderúrgica, mas que também desempenha um papel importante nos sectores aeroespacial, energético, tecnológico e médico.
A exploração do nióbio deverá arrancar ainda este ano no município de Quilengues, província da Huíla, segundo anunciou o ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, Diamantino Azevedo. A entrada neste mercado poderá representar uma nova frente para a diversificação da economia angolana e para a redução da dependência do petróleo.
O nióbio é um metal de características particulares, nomeadamente elevada resistência, capacidade de suportar temperaturas muito altas e propriedades de supercondutividade. É considerado um mineral crítico e estratégico por vários países devido à concentração da sua produção mundial num número reduzido de produtores. A United States Geological Survey inclui actualmente o nióbio na sua lista de minerais críticos.
Um mineral essencial para o aço
A principal aplicação do nióbio encontra-se na produção de aços de alta resistência. Pequenas quantidades do elemento podem aumentar significativamente a resistência mecânica, a dureza e a tenacidade do aço, permitindo fabricar estruturas mais resistentes sem necessariamente aumentar o seu peso.
Por essa razão, o nióbio é utilizado em oleodutos e gasodutos, pontes, edifícios, caminhos-de-ferro, automóveis, navios e outras grandes infra-estruturas. Segundo dados do USGS, cerca de três quartos do consumo de nióbio estão associados à produção de ligas de aço de elevada resistência.
Esta característica poderá ter particular interesse para Angola, país que necessita de continuar a investir em estradas, pontes, caminhos-de-ferro, portos, habitação e outras infra-estruturas. A disponibilidade de uma matéria-prima estratégica no território nacional poderá, a prazo, criar oportunidades para desenvolver actividades industriais associadas à transformação do minério.
Da construção à indústria aeroespacial
O nióbio também é utilizado na produção de superligas destinadas a aplicações que exigem elevada resistência a temperaturas extremas. Entre elas encontram-se componentes de motores de aviões, turbinas a gás, equipamentos industriais e componentes utilizados na indústria espacial.
Outra aplicação de elevado valor tecnológico está relacionada com a supercondutividade. Ligas de nióbio são utilizadas no fabrico de ímanes supercondutores presentes em equipamentos de ressonância magnética e em grandes instalações científicas, incluindo aceleradores de partículas.
Isto significa que, embora a maior parte do consumo esteja concentrada na siderurgia, o nióbio está igualmente ligado a algumas das tecnologias mais avançadas utilizadas actualmente.
Cadeia de valor grande mais-valia
Para Angola, a importância do projecto ultrapassa a simples extracção de mais um recurso mineral. A exploração do nióbio poderá contribuir para alargar a base produtiva do país, gerar receitas de exportação, criar emprego e estimular investimentos em infra-estruturas e serviços nas zonas de produção.
O maior desafio, contudo, será evitar que o país se limite a exportar minério bruto. A verdadeira mais-valia económica poderá estar no desenvolvimento de uma cadeia de valor que permita aumentar progressivamente o grau de transformação do nióbio em território nacional.
Isso poderá passar pelo processamento do minério, produção de concentrados e, numa fase posterior, pelo desenvolvimento de ligas e outros produtos destinados à indústria. Quanto maior for a transformação realizada em Angola, maior poderá ser o valor económico capturado pelo país.
A aposta poderá ainda estimular a formação de mão-de-obra especializada, a investigação geológica e mineira e a criação de empresas nacionais ligadas à cadeia de fornecimento da indústria extractiva.
Um mercado concentrado
A entrada de Angola no sector também poderá assumir importância estratégica num mercado cuja produção está fortemente concentrada. O Brasil é, de longe, o principal produtor mundial, enquanto o Canadá constitui outro importante produtor. A mina de Niobec, no Quebeque, é identificada pelo USGS como o principal produtor de nióbio fora do Brasil.
Esta concentração torna novos projectos de produção potencialmente relevantes para a diversificação das fontes de fornecimento, sobretudo numa altura em que grandes economias procuram garantir o acesso a minerais considerados críticos para as suas cadeias industriais.
Para Angola, isto poderá abrir portas a novos mercados e a parcerias internacionais, particularmente com países e empresas interessados em garantir fornecimentos de minerais estratégicos.
Mais do que um novo produto de exportação
O nióbio poderá, assim, representar para Angola muito mais do que uma nova matéria-prima de exportação. Se a exploração for acompanhada por políticas de conteúdo local, transformação industrial, formação profissional, investigação e protecção ambiental, o projecto poderá contribuir para criar uma nova cadeia de valor mineiro e industrial.
A exploração deverá, por outro lado, ser acompanhada por rigorosos mecanismos ambientais. A actividade mineira pode provocar alteração dos solos, geração de resíduos e outros impactos que exigem gestão adequada durante e depois da exploração.
O sucesso da aposta angolana dependerá, por isso, não apenas da quantidade de nióbio existente no subsolo, mas sobretudo da capacidade do país para transformar essa riqueza mineral em investimento, emprego, conhecimento e indústria.
A entrada no mercado do nióbio poderá constituir uma oportunidade para Angola afirmar-se como fornecedor de um mineral estratégico e, simultaneamente, dar mais um passo na construção de uma economia menos dependente do petróleo e com maior capacidade de acrescentar valor aos seus recursos naturais.