O economista-chefe do Standard Bank para Angola, Moçambique e República Democrática do Congo, Fáusio Mussá, elogiou a política fiscal angolana, mas deixou um aviso: com eleições gerais marcadas para 2027, o país enfrenta um risco crescente de deslize nas contas públicas e precisa de reforçar o controlo da despesa.
Mussá falava em Luanda na primeira edição do Briefing Económico de 2026 do Standard Bank de Angola, subordinado ao tema “Angola, Estabilização Macroeconómica num Ambiente de Elevada Volatilidade no Preço do Petróleo”.
“Tem sido notória uma política fiscal muito prudente e, sobretudo, uma grande coordenação entre a política fiscal e a política monetária para garantir alguma estabilidade macroeconómica”, afirmou. O economista elogiou ainda a decisão do Governo de não rever os pressupostos do Orçamento do Estado face à incerteza global, considerando-a adequada num contexto de “volatilidade muito grande”.
Ainda assim, o horizonte eleitoral preocupa. “Quando nos aproximamos das eleições pode haver uma intenção de concluir vários projectos que têm estado a ser desenvolvidos ao longo dos anos”, explicou Mussá, alertando que esse impulso de despesa pode pressionar o saldo fiscal. O analista defendeu que Angola deve manter a concentração da despesa nos projectos prioritários e continuar a acumular “almofadas” de poupança que permitam absorver os choques da volatilidade petrolífera.
No plano da dívida, Mussá destacou positivamente a emissão recente de quatro mil milhões de dólares em Eurobonds nos mercados internacionais, salientando que parte das receitas está a ser usada para suavizar o reembolso de operações futuras — uma estratégia que, no seu entender, pode aliviar a pressão do serviço da dívida sobretudo em 2028 e 2029.
Sobre a inflação, a previsão do Standard Bank aponta para 8,6% até ao final do ano, o que representaria, a concretizar-se, a primeira vez que Angola atingiria inflação a um dígito. Dois factores explicam esta trajectória: a estabilidade cambial desde 2024, que tem permitido uma gestão mais previsível das margens de importação, e a manutenção do subsídio aos combustíveis — o aumento do preço do diesel foi de apenas 5% em Angola, contrastando com os 45% registados em Moçambique.
O subsídio aos combustíveis surge, porém, também como um dos principais constrangimentos estruturais: Mussá assinalou que, apesar de Angola beneficiar de um ambiente económico mais favorável com a alta do preço do petróleo, o peso dos subsídios reduz os ganhos que essa conjuntura poderia gerar para as finanças públicas.
Para sustentar o crescimento a longo prazo, o economista defendeu a continuidade das reformas para atrair investimento nacional e estrangeiro e melhorar o ambiente de negócios, considerando encorajadores os dados que apontam para um crescimento consistente suportado pelo sector não petrolífero — nomeadamente nos sectores de energia, agricultura e substituição de importações.
O Standard Bank Group opera em 38 países, dos quais 18 em África, sendo o maior banco privado a actuar no continente.