O discurso do presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed), Kevin Warsh, na conferência de Jackson Hole, na passada sexta-feira, teve um efeito imediato nos mercados: a probabilidade de uma subida das taxas de juro na reunião de Setembro disparou, depois de Warsh ter adoptado um tom mais restritivo do que o esperado, dissipando dúvidas sobre se o banco central norte-americano estaria, ou não, disposto a agir contra a inflação persistente.
Na sua primeira intervenção como presidente da Fed no simpósio anual organizado pelo banco central de Kansas City, Warsh sublinhou que a inflação está acima da meta de 2% da Fed há 65 meses consecutivos, e advertiu que, caso os preços continuem a subir, “ainda há trabalho a fazer”. Segundo Warsh, os dados recentes sobre a inflação oferecem pouco conforto, e as condições financeiras actuais mostram poucos sinais de restrição efectiva da política monetária — uma leitura mais dura do que a que tinha apresentado após a reunião de Julho da Fed, e que colide directamente com a pressão do Presidente Donald Trump, que o nomeou para o cargo, para que as taxas de juro desçam.
O impacto nos mercados foi imediato: segundo dados do CME FedWatch, citados pela PBS News, a probabilidade atribuída pelos investidores a uma subida das taxas de juro na reunião da Fed de meados de Setembro passou de cerca de um terço para praticamente equivalente a cara-ou-coroa, logo após o discurso. A rendibilidade das obrigações do Tesouro a dois anos, um indicador sensível às expectativas sobre a política de curto prazo da Fed, subiu de 4,22% para 4,30%.
Sinal claro, mas sem se comprometer com “forward guidance”
O discurso ganha um significado adicional por contrastar com a abordagem que Warsh tem defendido desde que assumiu a presidência da Fed: o abandono da prática tradicional de fornecer indicações explícitas sobre os próximos passos da política monetária, o chamado “forward guidance”. Analistas do banco ING resumiram bem essa contradição aparente, notando que Warsh evitou deliberadamente dar indicações sobre o futuro, mas que as suas palavras tiveram, na prática, o mesmo efeito. Jon Faust, economista da Universidade Johns Hopkins e antigo conselheiro do ex-presidente da Fed Jerome Powell, considerou que Warsh conseguiu transmitir uma abordagem mais dura sobre a inflação sem recorrer ao tipo de orientação detalhada que tem criticado publicamente.
Nem todos ficaram convencidos de que a clareza foi total. Michael Strain, director de estudos de política económica no American Enterprise Institute, notou que o presidente da Fed já tinha usado retórica dura sobre a inflação no passado sem que isso resultasse numa subida efectiva da taxa de referência, e que o discurso de sexta-feira não oferece garantias adicionais sobre o momento exacto de qualquer decisão — uma leitura que, segundo Strain, aumenta a pressão sobre a reunião de Setembro, já que os mercados procuram clareza e ainda não é certo se o discurso a proporcionou ou se, pelo contrário, gerou mais confusão.
Este episódio surge, aliás, depois de as duas primeiras conferências de imprensa de Warsh como presidente da Fed, em Julho, terem deixado grande parte do mercado sem perceber claramente a sua orientação, levando os investidores obrigacionistas a vender dívida de longo prazo para se protegerem dessa incerteza. Em Jackson Hole, Warsh procurou responder directamente a essas críticas, insistindo que a sua política de ambiguidade deliberada sobre as decisões da Fed veio para ficar, e defendendo que a instituição deve ser avaliada pelos resultados que entrega, e não pela previsibilidade das suas comunicações.
Pressão política a caminho das legislativas de Novembro
O momento político em que este discurso surge não é irrelevante. Com as eleições intercalares de Novembro a aproximarem-se, cresce a pressão política — nomeadamente da própria Casa Branca — para que a Fed baixe o custo do crédito, numa altura em que juros mais baixos tendem a ser vistos como favoráveis ao ciclo eleitoral. Segundo a equipa de Washington da Semafor, a postura de Warsh de evitar orientações explícitas sobre a política futura tenderá a tornar-se cada vez mais difícil de sustentar, à medida que continuar a fazer discursos com o mesmo grau de clareza indirecta do que este.
O tom mais restritivo de Warsh reflecte ainda a divisão crescente dentro da própria Fed sobre se a inflação actual é ou não um fenómeno transitório: a decisão do mês passado de manter as taxas de juro inalteradas resultou no maior número de votos discordantes entre membros do comité de política monetária desde 1970, segundo a Semafor. Para os mercados, a reunião de Setembro transformou-se assim no primeiro verdadeiro teste sobre até que ponto a retórica mais dura de Warsh se traduzirá, de facto, numa subida da taxa de juro de referência.