O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, começa esta segunda-feira a receber os ministros das Finanças e governadores dos bancos centrais do G20 em Asheville, na Carolina do Norte, numa reunião que se anuncia especialmente difícil para Washington. Em vez de um encontro consensual sobre crescimento económico, Bessent chega à mesa das negociações com pelo menos três frentes de atrito simultâneas: as dúvidas de aliados sobre a estratégia norte-americana perante o Irão, uma nova ronda de tarifas que atinge a generalidade dos membros do grupo, e uma guerra comercial em escalada com o Canadá — um dos parceiros historicamente mais próximos dos EUA.
A reunião surge poucos dias depois de as hostilidades entre os Estados Unidos e o Irão terem recrudescido, com o conflito a manter os preços dos combustíveis elevados a nível global. Bessent tem vindo a pressionar publicamente Pequim, ameaçando penalizações económicas mais severas contra os parceiros comerciais de Teerão — China incluída — caso não se distanciem do regime iraniano. Em declarações à Associated Press, o secretário do Tesouro afirmou que “todas as opções estão em cima da mesa” no que toca a sanções contra a China pelas suas compras continuadas de petróleo iraniano, rejeitando a ideia de que a administração Trump esteja relutante em confrontar Pequim diretamente. Bessent insistiu ainda que Washington e Pequim partilham o interesse em reabrir o Estreito de Ormuz e impedir o desenvolvimento de armamento nuclear iraniano.
Ainda assim, segundo um antigo responsável citado pela Reuters, os restantes membros do G20 “não se deixarão convencer por palavras tranquilizadoras” — muitos países do grupo estão a sentir directamente os efeitos económicos da guerra com o Irão, nomeadamente através dos preços da energia, e chegam a Asheville com expectativas de respostas mais concretas do que garantias diplomáticas.
Tarifas que substituíram as anteriores — mas não aliviaram a tensão
A reunião ocorre também num momento de forte incerteza sobre a política comercial norte-americana. Depois de o anterior regime de tarifas ter sido invalidado pelo Supremo Tribunal dos EUA, a administração Trump anunciou um novo conjunto de penalizações destinado a substituí-lo — uma mudança que deixa a generalidade dos membros do G20 a lidar com tarifas novas, e não com um alívio da pressão comercial que muitos esperavam depois da decisão judicial.
É neste contexto que a relação entre Washington e Otava se tornou, segundo múltiplas fontes, a mais tensa de toda a reunião. Depois de uma rutura nas negociações comerciais entre os dois países, as tarifas entre os Estados Unidos e o Canadá têm vindo a escalar de forma acentuada — uma deterioração notável entre dois aliados que, historicamente, mantinham uma das relações comerciais mais próximas e integradas do mundo.
Um encontro pensado como palco de crescimento, mas dominado por outros temas
Bessent tinha planeado apresentar esta reunião do G20 — que decorre em Asheville, cidade fortemente atingida pelo furacão Helene em Setembro de 2024, com mais de 250 mortos e cerca de 80 mil milhões de dólares em danos — como um símbolo de reconstrução económica, focando a agenda em temas com maior probabilidade de gerar consenso: crescimento global, redução de desequilíbrios comerciais, regulação bancária e reestruturação de dívida soberana em países em desenvolvimento. Segundo o secretário do Tesouro, “o mundo tem esta montanha de dívida, e temos de crescer para sair dela” — uma mensagem que a administração norte-americana esperava fosse o tema central dos trabalhos.
Mas o pano de fundo geopolítico — Irão, tarifas, Canadá — deverá dominar boa parte das conversas informais e formais ao longo dos dois dias de reunião, dificultando também os esforços de Bessent para alinhar os membros do G20 em torno de outras prioridades da administração Trump, nomeadamente a supervisão regulatória da inteligência artificial, tema que Washington também pretendia colocar na agenda do encontro.
Este é, além disso, o primeiro G20 sob liderança direta dos Estados Unidos depois de, no ano passado, Bessent ter evitado participar no processo do grupo quando a presidência rotativa esteve a cargo da África do Sul — um afastamento que agora contrasta com a tentativa de Washington de reformular o G20 segundo a sua própria visão, num momento em que a confiança de vários parceiros nas intenções norte-americanas está, precisamente, sob maior escrutínio.