Desporto

Presidente da FIFA responde a críticas ao Mundial 2026 com mensagem de 15 imagens

Presidente da FIFA publicou mensagem em 15 imagens nas redes sociais, defendendo o balanço do torneio e evitando referir-se aos incidentes mais controversos, incluindo as quatro mortes registadas na Cidade do México

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, criticou duramente aqueles que têm escrutinado a sua liderança e a organização do Mundial 2026, acusando os críticos de “espalhar ódio” e aconselhando-os a “meditar, rezar ou assistir a um jogo de futebol”, em vez de gastarem energia a “odiar” a FIFA.

A mensagem foi publicada em 15 imagens na conta pessoal de Infantino no Instagram e distribuída aos meios de comunicação social pela equipa de comunicação da FIFA, tendo sido igualmente partilhada na conta oficial da FIFA, com mais de oito milhões de seguidores, além dos 5,7 milhões de seguidores da própria conta do dirigente suíço-italiano. No texto, Infantino defende que o Mundial “celebrou a humanidade no seu melhor”, sublinhando que milhares de milhões de pessoas em todo o mundo assistiram à competição e que “praticamente todas as celebridades globais da música, do cinema, do entretenimento e do desporto” marcaram presença.

Um Mundial marcado por sucessivas polémicas

Infantino, que não realizou conferências de imprensa nem no arranque nem no final do torneio, optou por desvalorizar vários dos momentos mais controversos vividos antes e durante a competição.

Um dos episódios mais debatidos foi a limitação imposta a adeptos de quatro selecções — Irão, Haiti, Senegal e Costa do Marfim — devido às restrições de viagem impostas pela administração de Donald Trump aos Estados Unidos. “Acho que todas as equipas podem ter o seu público, por isso não entendo porque é que as pessoas de África não podem ter o mesmo”, declarou, ainda durante a fase de grupos, o capitão do Senegal, Kalidou Koulibaly, ao The Athletic.

Também o árbitro somali da FIFA, Omar Artan, foi impedido de entrar nos Estados Unidos, em vésperas do torneio, depois de um responsável da Casa Branca ter alegado uma “associação com suspeitos membros de organizações terroristas”. A FIFA enfrenta ainda investigações em curso pelos procuradores-gerais de Nova Iorque, Nova Jersey, Texas e Califórnia, relacionadas com os preços da bilhética do Mundial.

A selecção do Irão também se queixou das dificuldades sentidas ao longo da competição, com o capitão Mehdi Taremi a classificar a participação da equipa como um “desastre”, devido às restrições de vistos e de circulação impostas aos membros da federação iraniana.

Suspeitas de interferência política num cartão vermelho

Outra controvérsia surgiu a meio do torneio, depois de o avançado norte-americano Folarin Balogun ter sido expulso durante a vitória por 2-0 sobre a Bósnia e Herzegovina, nos dezasseis-avos-de-final, accionando automaticamente uma suspensão de um jogo. No entanto, um dia antes de os Estados Unidos defrontarem a Bélgica, em Seattle, veio a confirmar-se que Balogun estaria afinal disponível para jogar — decisão comunicada pela própria FIFA, depois de o comité disciplinar da organização ter suspendido a sanção, sem qualquer explicação pública.

O Presidente Donald Trump viria mais tarde a revelar que tinha telefonado a Infantino a pedir a revisão do caso, o que motivou fortes acusações de interferência política no torneio. Infantino negou as acusações, mas a FIFA enfrentou críticas públicas da UEFA, da federação belga de futebol e de dezenas de eurodeputados. A Federação Norueguesa de Futebol pretende, aliás, apresentar uma queixa formal à FIFA sobre o papel de Trump na suspensão do cartão vermelho de Balogun — um desenvolvimento que se soma à queixa ética apresentada em Dezembro pela mesma federação, relativa à decisão de Infantino de atribuir a Trump o Prémio da Paz da FIFA.

“Peço desculpa por terem estado tão consumidos pelo ódio”

No ensaio publicado no Instagram, na noite de domingo, Infantino escreveu: “A todos vocês que perderam a oportunidade de ver crianças, bebés, avós e pais a juntarem-se pelo belo jogo, digo que lamento que os jogos tenham terminado e lamento que tenham perdido toda essa alegria e união. Lamento que tenham estado tão consumidos pelo ódio e pela crítica que perderam tudo isso”. Dirigindo-se directamente aos críticos, acrescentou: “Àqueles que estão atrás das suas canetas e papéis, atrás dos seus ecrãs a espalhar ódio e falsos rumores, quero dizer que, enquanto vocês estão sentados nos bastidores, nós, na FIFA, estamos na linha da frente a organizar, a trabalhar arduamente e a entregar o melhor espectáculo do mundo”.

Infantino garantiu ainda que o torneio decorreu “sem incidentes, com 100% de segurança, apenas alegria e felicidade”, assegurando que todos os que assistiram ao Mundial estiveram “seguros e felizes” — sem, no entanto, fazer qualquer referência às quatro pessoas que morreram por asfixia durante as celebrações do Mundial na Cidade do México, na sequência da vitória do México sobre o Equador, nos dezasseis-avos-de-final, segundo confirmou a autoridade de saúde pública da capital mexicana. As equipas médicas chegaram a realizar manobras de reanimação em três das vítimas, mas todas acabaram por morrer por asfixia, tendo sido identificadas pelas respectivas famílias; um quinto óbito viria a ser confirmado dias depois pela secretária de Saúde da Cidade do México, Nadine Gasman. Infantino tinha já manifestado condolências, num post separado no Instagram, no dia seguinte à tragédia.

Sem menção às restrições de visto ao Irão nem à polémica da bandeira

No mesmo texto, Infantino agradeceu aos países anfitriões, às forças policiais e aos voluntários pela segurança garantida durante o torneio, e insistiu que a FIFA “trabalhou incansavelmente para unir dois países em guerra”, afirmando que “o Irão entrou nos Estados Unidos sem incidentes nem conflitos”. Na prática, porém, quatro dos 15 elementos da comitiva iraniana inicialmente impedidos de obter visto para entrar nos Estados Unidos só viram esse direito reconhecido depois de recorrerem junto do Departamento de Estado norte-americano; até ao terceiro jogo do Irão, frente ao Egipto, em Seattle, a equipa só pôde viajar com dois dias de antecedência para os locais de jogo, depois de nos dois primeiros encontros, em Los Angeles, ter sido obrigada a viajar apenas na véspera das partidas.

O secretário da Segurança Interna dos Estados Unidos, Markwayne Mullin, chegou a afirmar que membros da comitiva iraniana tinham tentado introduzir clandestinamente uma pessoa com ligações directas ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, organização classificada como terrorista por Washington — acusação que um responsável da federação iraniana de futebol classificou como “falsa, fabricada e totalmente infundada”. A mensagem de Infantino não fez também qualquer referência ao processo judicial movido contra a FIFA por tentar impedir adeptos iranianos de introduzir nos estádios a bandeira do leão e do sol, símbolo do Irão pré-revolucionário.

“Decisões arbitrais discutíveis são rotina”, defende Infantino

Numa aparente referência à polémica com Balogun e às críticas à arbitragem ao longo do torneio, Infantino escreveu: “O vosso descontentamento com algumas decisões tomadas pelas autoridades competentes é compreensível, mas consultem os registos públicos: esse tipo de decisões é comum nalgumas das ligas mais importantes do mundo. De facto, decisões arbitrais ‘discutíveis’ ou sanções disciplinares ‘estranhas’ — como, por exemplo, cartões vermelhos ou amarelos potencialmente equivocados, ou decisões subsequentes de não suspender jogadores em determinadas situações — são rotina e amplamente aceites nalgumas das maiores ligas do mundo”.

O dirigente da FIFA pareceu ainda sugerir que a organização merecia elogios por ter garantido vistos a parte, embora não à totalidade, dos interessados em assistir ao torneio: “Mencionaram as poucas pessoas às quais foi negado o visto e ignoraram os milhões que foram aprovados, vindos de todas as partes do mundo”.

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