O cessar-fogo anunciado por Israel e Irão acalmou os investidores, mas não os convenceu. O crude baixou dos máximos de ontem, o ouro continua 18% abaixo dos níveis pré-guerra e o dólar testa os limites da paciência japonesa.
Os mercados financeiros globais vivem esta terça-feira um compasso de espera, depois de um dia de segunda-feira que combinou ataques com mísseis, apelos de Trump e anúncios de cessar-fogo numa sequência que deixou petróleo, ouro e divisas a oscilar em todas as direcções. Por agora, a tensão baixou — mas os investidores não estão dispostos a apostar que ficará assim.
Petróleo: a volatilidade como novo normal
O Brent recua 1,14% para 93,26 dólares por barril esta terça-feira, depois de ontem ter chegado a disparar mais de 5% quando Israel e Irão trocaram ataques directos pela primeira vez desde o cessar-fogo de Abril. A pressão de Trump para travar o conflito e o consequente anúncio de suspensão das ofensivas pelas duas partes bastaram para apagar boa parte dos ganhos. O WTI, referência norte-americana, negoceia abaixo dos 90 dólares, com perdas de 1,46%.
O padrão é claro: o crude está a mover-se “ao sabor das notícias” vindas do Golfo, como resume Al Salazar, director de investigação da consultora Enverus. O problema estrutural não mudou — o Estreito de Ormuz continua praticamente encerrado, os inventários estão esgotados, e os analistas consideram que os preços teriam de se manter “firmemente na casa dos três dígitos” para reflectiressa realidade. Trump, pressionado internamente pela escalada nos custos de energia e com eleições à vista, reiterou ontem que os EUA vão declarar “vitória total” sobre o Irão nas próximas duas semanas e que os preços do petróleo vão cair assim que o conflito terminar.
Ouro: o paradoxo de um activo de refúgio que não refugia
O ouro sobe apenas 0,27% para 4.329 dólares por onça — praticamente nada, num dia em que a geopolítica deveria, em teoria, empurrá-lo para cima. O metal precioso perdeu 18% desde o início do conflito e viu os seus ganhos anuais serem apagados, numa evolução contraintuitiva que tem uma explicação directa: a escalada nos preços da energia está a alimentar expectativas de aperto monetário, e o ouro — que não rende juros — perde atractividadequando as taxas sobem.
O Citi cortou esta semana a sua previsão de preço para os próximos três meses de 4.300 para 4.000 dólares por onça. “A longo prazo, mantemos uma visão optimista, mas o risco é extremamente elevado no curto prazo para quem não dispõe de horizontes de investimento longos”, alertaram os analistas do banco.
Dólar: um acordo de paz pode custar-lhe terreno
O índice do dólar recua ligeiramente esta terça-feira, depois de na segunda-feira ter tocado nos máximos de dois meses. O euro ganha 0,04% para 1,1539 dólares, a libra avança 0,17% e o dólar frente ao iene chegou aos 160,19 — nível que os mercados identificam como zona de potencial intervenção das autoridades japonesas.
Os estrategas cambiais do Commonwealth Bank ofAustralia avisam que um acordo de paz no Golfo teria um efeito imediato sobre o dólar: “Se se chegar a um acordo, o dólar irá desvalorizar-se temporariamente devido a uma inversão dos fluxos de fuga para activos seguros.” Por agora, as negociações entre Washington e Teerão permanecem bloqueadas em três pontos — o controlo do Estreito de Ormuz, o enriquecimento de urânio e a situação no Líbano —, o que mantém o dólar forte e os mercados em suspenso.