As exportações de petróleo bruto da Venezuela dispararam quase 30% em Agosto face ao mês anterior, precisamente numa altura em que a administração Trump se prepara para assumir um controlo cada vez maior sobre a indústria petrolífera venezuelana. Segundo dados de transporte marítimo compilados pela Kpler e pela Bloomberg, os petroleiros carregaram, em média, 1,114 milhões de barris de crude por dia em Agosto — um aumento de 28% face a Julho —, com os fluxos para a Índia a mais do que duplicar no mesmo período.
A subida das exportações surge dias depois de a Casa Branca ter revelado mais detalhes sobre o acordo que Donald Trump anunciara na semana passada como “o maior negócio petrolífero da história mundial”: os Estados Unidos vão deter uma participação de 35% numa nova empresa privada criada em parceria com a North American Blue Energy Partners (NABEP), a segunda maior operadora petrolífera privada da Venezuela, atrás apenas da Chevron. Coube ao Departamento de Defesa norte-americano — e não apenas ao Departamento de Estado, como inicialmente sugerido — assumir essa participação accionista, com o Departamento de Estado a garantir ainda o direito de comprar 20% da produção da empresa ao preço de custo, além de um direito de preferência sobre a restante produção.
A NABEP é liderada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt, uma figura que, segundo o economista Francisco Rodríguez, citado pela Democracy Now, tem sido alvo de investigações e de referências em várias acusações judiciais relacionadas com branqueamento de capitais, incluindo reportagens do Washington Post e do Wall Street Journal. Betancourt foi presidente executivo da Derwick Associates, empresa contratada sem concurso público pelo governo de Hugo Chávez para construir centrais eléctricas — pelo menos uma das quais nunca chegou a ser concluída. Em declarações públicas sobre o acordo, Betancourt afirmou que a Venezuela está “abençoada com uma abundância de recursos naturais, gente trabalhadora e potencial por explorar”, e que este negócio permitirá “libertar esse potencial para grande benefício de venezuelanos e norte-americanos”. Segundo a própria empresa, Betancourt está envolvido na indústria petrolífera venezuelana há mais de 15 anos, e a NABEP emprega mais de 5.000 trabalhadores directos e mais de 10.000 subcontratados, produzindo actualmente mais de 200.000 barris de petróleo por dia.
Um acordo com críticos dos dois lados
O acordo, que envolve concessões de 100 anos para o desenvolvimento de 17 campos petrolíferos com um potencial provado de 65 mil milhões de barris, tem sido recebido com forte cepticismo tanto por analistas independentes como por parte da classe política norte-americana. O senador democrata Jack Reed, membro sénior da Comissão de Serviços Armados do Senado, classificou o uso do Departamento de Defesa como investidor num negócio petrolífero privado como “um abuso flagrante de poder e de dinheiro dos contribuintes”, acrescentando que a administração Trump está a tentar usar activos militares e financiamento garantido pelos contribuintes para reforçar um empreendimento petrolífero privado.
Críticos apontam ainda dois riscos adicionais: o de este tipo de acordo contribuir para consolidar o poder dos actuais líderes de Caracas — instalados depois de, em Janeiro deste ano, forças especiais dos Estados Unidos terem capturado o então Presidente Nicolás Maduro —, e o de gerar incerteza para outros investidores interessados no país sul-americano, uma vez que se trata de uma concessão negociada com um governo interino e não democraticamente eleito, o que aumenta o risco de o acordo poder vir a ser repudiado por um governo venezuelano futuro.
Do lado da administração norte-americana, a defesa do acordo assenta em dois argumentos principais: o de que é necessário para expandir as reservas de crude ao dispor dos Estados Unidos, e o de reabastecer a Reserva Estratégica de Petróleo do país, actualmente nos níveis mais baixos desde 1982 — precisamente quando a administração Reagan estava a preenchê-la pela primeira vez. Segundo a CNN, essa reserva tem vindo a ser drenada pela administração Trump para compensar a falta de exportações de petróleo do Golfo Pérsico, numa altura em que o conflito com o Irão tem perturbado significativamente o tráfego no Estreito de Ormuz — uma via marítima essencial para o comércio mundial de petróleo, actualmente atravessada por apenas um punhado de navios por dia, quando há um ano cerca de 100 embarcações a cruzavam diariamente.
Trump prometeu ainda que o acordo vai “reduzir substancialmente os preços da gasolina para todos os americanos, a longo prazo” — uma promessa recebida com cepticismo por analistas do sector, que apontam para limitações concretas na infra-estrutura de exportação venezuelana. Segundo Andy Lipow, analista petrolífero citado pela CNBC, os petroleiros chegam a esperar até 30 dias para carregar crude na Venezuela, devido a infra-estruturas envelhecidas e cortes de energia que afectam os portos do país — terminais que precisarão de ser expandidos para conseguirem escoar volumes de produção mais elevados. Segundo David Goldwyn, antigo responsável do Departamento de Estado norte-americano para questões energéticas, os campos petrolíferos localizados na Faixa do Orinoco — onde se concentra a maior parte das reservas abrangidas pelo acordo — têm pouco ou nenhum acesso a infra-estrutura, e poderão demorar entre cinco a sete anos, na melhor das hipóteses, a gerar um aumento de produção com impacto real no mercado.
Um aumento imediato, mas com efeitos limitados nos preços
O contraste entre a subida já registada nas exportações venezuelanas em Agosto e as limitações estruturais identificadas pelos analistas ilustra bem a dualidade deste momento para a indústria petrolífera do país: por um lado, a Venezuela já vinha a recuperar volumes de exportação antes mesmo do anúncio formal do acordo, com o alívio parcial de sanções e a maior estabilidade do governo interino a atrair compradores dispostos a adquirir barris com desconto. Por outro, o potencial de produção adicional de um a dois milhões de barris diários que o acordo poderá eventualmente desbloquear é, segundo analistas do sector, um desenvolvimento que só deverá materializar-se entre o final desta década e o início da próxima — dependente de mais de 100 mil milhões de dólares em investimento sustentado e da reconstrução da infra-estrutura de crude extra-pesado da Faixa do Orinoco.
É por isso que, apesar de todo o simbolismo político do acordo, os preços do petróleo não dispararam com o anúncio: a produção adicional venezuelana é vista pelo mercado como um desenvolvimento de médio a longo prazo, e não como um evento de oferta imediata capaz de aliviar, desde já, a pressão inflacionária sobre os preços dos combustíveis nos Estados Unidos — uma pressão agravada pela guerra em curso entre Washington e Teerão, que continua a ser o factor mais imediato a pesar sobre o custo da gasolina para os consumidores norte-americanos.