Os mercados accionistas registaram subidas e as taxas de juro (yields) da dívida soberana a nível mundial recuaram esta quinta-feira, depois de um governador da Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed) ter defendido a manutenção das taxas de juro inalteradas, caso a inflação continue a desacelerar.
“Deem uma oportunidade à desinflação”, afirmou Christopher Waller, membro do conselho de governadores da Fed, numa paráfrase à célebre canção de John Lennon “Give Peace a Chance”. O governante citou “um progresso lento, mas contínuo” rumo à meta de 2% de inflação definida pelo banco central norte-americano, e defendeu que vale a pena esperar mais uma reunião antes de qualquer decisão sobre as taxas de juro. “Qual é o custo de esperar uma reunião? Subir 25 pontos base agora não vai fazer o índice de preços no consumidor descer para os 2%”, declarou Waller, em entrevista à Reuters.
Com esta intervenção, a probabilidade atribuída pelo mercado a uma subida das taxas de juro na reunião de 15 e 16 de Setembro caiu para cerca de 50%, alguns dias depois de um discurso de tom marcadamente mais restritivo do presidente da Fed, Kevin Warsh, no encontro anual de banqueiros centrais em Jackson Hole, ter levado os investidores a apostar numa subida das taxas de juro. Warsh advertiu, na ocasião, que a inflação subjacente continua “significativamente acima” do objectivo do banco central e que a Fed “não tem tolerância para uma inflação persistentemente elevada”, deixando em aberto a possibilidade de um novo aumento das taxas de juro caso os dados não melhorem.
Divergência dentro da Fed sobre o rumo da política monetária
As declarações de Waller e a leitura mais cautelosa do presidente da Fed de Nova Iorque, John Williams, evidenciam a divisão que atravessa actualmente o banco central norte-americano quanto à melhor resposta à inflação. Tanto Waller como Williams sugeriram que os efeitos inflacionários das tarifas alfandegárias impostas pela administração norte-americana e da subida dos preços da energia associada aos conflitos militares em curso são temporários e estão a esbater-se. Ainda assim, Williams mostrou-se mais reticente quanto ao rumo a seguir: “não há sinais claros, neste momento, de que a política actual vai trazer a inflação para a meta”, afirmou o responsável, em declarações à imprensa esta semana, acrescentando que a Fed “tem de esperar para ver” o comportamento dos próximos indicadores antes de tomar uma decisão.
A próxima reunião do Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC), órgão da Fed responsável pela definição das taxas de juro de referência nos Estados Unidos, está marcada para os dias 15 e 16 de Setembro. Até lá, os mercados vão continuar atentos aos dados de inflação que serão divulgados nas próximas semanas, que deverão ser determinantes para a decisão final do banco central norte-americano — uma decisão que, pela primeira vez em vários anos, os investidores admitem poder resultar numa subida, e não numa descida, das taxas de juro de referência.