Internacional

Kevin Warsh estreia-se em Sintra e garante independência da Fed

Foi o debate mais esperado do Fórum do Banco Central Europeu (BCE) em Sintra e, desta vez, não foi excepção. Apesar de reunir em palco quatro pesos-pesados da política monetária mundial, foi a estreia de Kevin Warsh — o novo presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos — que centrou as atenções, numa altura em que a sua independência face à Casa Branca continua a ser questionada. “Temos sido um banco central independente por muito tempo. Vamos continuar a ser neste momento e não há qualquer alteração nisto”, garantiu Warsh.

Criado em 2014, o Fórum do BCE sobre Banca Central é o encontro anual que reúne, em Sintra, a histórica vila portuguesa, não muito longe da capital, Lisboa, Portugal, os governadores de bancos centrais, académicos, investidores e jornalistas para debater os principais temas da política monetária. Foi concebido como a resposta europeia ao Símposiode Jackson Hole, organizado todos os anos pela Reserva Federal norte-americana nos Estados Unidos, e tornou-se um dos momentos mais acompanhados do calendário económico mundial, servindo muitas vezes de palco para anúncios e sinais importantes sobre a orientação futura da política monetária — foi em Sintra, por exemplo, que MarioDraghi lançou, em 2014, as bases do programa de compra de dívida do BCE.

O tema da independência da Reserva Federal voltou a debate mais tarde, a propósito da decisão do Supremo Tribunal, esta semana, que rejeitou a tentativa de Trump de despedir a governadora da Fed Lisa Cook. Warsh reagiu primeiro em tom de brincadeira — “Estávamos a ir tão bem…” — e confessou ter lido a decisão no avião, a caminho de Portugal, antes de reforçar o compromisso com a independência da instituição: “Antes do Supremo Tribunal, a Fed agia de forma independente. Depois do Supremo Tribunal, a Fed vai agir de forma independente.” Rematou dizendo que, quando o banco alcançar a estabilidade de preços, “não teremos de nos preocupar com política, nem com intervenção judicial. Teremos só de olhar em frente.”

Esta é pelo menos a segunda vez consecutiva que o tema da independência da Fed é trazido para Sintra. No ano passado, era Jerome Powell a assumir a liderança do banco central, numa altura em que acumulava insultos por parte do líder da Casa Branca, e acabou por ser ovacionado de pé pela plateia pela resistência às pressões externas de Trump — um momento raro em eventos de política monetária.

Também Christine Lagarde, presidente do BCE, comentou o tema esta quarta-feira: “Eu vou ao Parlamento Europeu com regularidade para reportar o que fazemos, para explicar o que fazemos. Mantermo-nos fiéis ao nosso mandato, todo o mandato, é uma condição sine qua non para merecer a independência, que é um bem precioso. Sem ela não conseguiríamos fazer um bom trabalho.”

Quatro bancos centrais, quatro fases distintas

Andrew Bailey (Banco de Inglaterra), Tiff Macklem(Banco do Canadá), Christine Lagarde (BCE) e Kevin Warsh (Fed) discutiram lado a lado num momento em que as suas instituições atravessam fases diferentes do ciclo monetário.

A Fed manteve os juros inalterados no intervalo entre 3,50% e 3,75% na reunião de 17 de Junho, depois de Warsh ter revisto em alta as projecçõessobre a evolução dos preços — nove dos dezoito responsáveis admitiram pelo menos uma subida este ano. A inflação PCE, medida preferida da Fed, foi revista para 3,6%, face aos 2,7% anteriores, com o CPI a atingir 4,2%, um máximo desde Abril de 2023.

O BCE, por seu lado, subiu os juros em 25 pontos base a 11 de Junho, elevando a taxa de depósito para 2,25%, citando as pressões inflacionistas geradas pela guerra no Médio Oriente. O cenário base do BCE aponta para uma inflação média de 3% em 2026, descendo para 2,3% em 2027 e 2,0% em 2028 — uma revisão em alta face a Março, devido à trajectória mais elevada dos preços da energia.

No Reino Unido e no Canadá o quadro é misto: o Banco de Inglaterra mantém a taxa em 3,75%, com a inflação em 2,8% em Maio de 2026; o Banco do Canadá manteve recentemente a taxa directora em 2,25%, sem alterações significativas esperadas em 2026, sendo a maior fonte potencial de instabilidade uma eventual renegociação ou revisão do acordo comercial norte-americano (NAFTA/USMCA).

Apesar dos contextos económicos diferentes, há uma coisa que une os quatro banqueiros centrais: nenhum se atreve a fazer previsões futuras para a condução dos juros, reforçando o “funeral” do forward guidance — a prática que os bancos centrais tinham de comunicar antecipadamente a trajectóriaprovável da política de juros, em vez de se limitarem a anunciar a decisão do momento.

IA e imigração também em debate

Este foi o último debate do Fórum do BCE este ano. A Inteligência Artificial marcou parte da conversa entre os banqueiros centrais, tendo tido direito a uma discussão própria no dia anterior sobre os seus prós e contras actuais para as economias. Esta manhã, outro dos estudos em destaque relacionou imigração com produtividade: da autoria de GaetanoBasso (Banco de Itália), Mitali Mathur e Giovanni Peri (ambos da Universidade da Califórnia), o documento conclui que a imigração de fora da OCDE foi um dos motores da produtividade nas economias avançadas.

 

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