Economia

Juros da dívida americana atingem máximos desde 2007 com impasse entre Washington e Teerão

A rendibilidade das obrigações do Tesouro dos EUA a 10 anos subiu para cerca de 5,25%, puxada pelo receio de que o petróleo se mantenha caro durante mais tempo. Para Angola, o choque traz receitas petrolíferas mais altas, mas também financiamento externo mais caro

A rendibilidade das obrigações do Tesouro norte-americano a 10 anos, referência para o custo do crédito em todo o mundo, voltou esta segunda-feira a níveis que não se viam desde 2007. O título de referência avançou para 5,25%, o nível mais alto desde 2007, e as obrigações a 30 anos acompanharam a subida, atingindo 5,57%, um patamar que não era tocado desde 2004.

A pressão vem sobretudo do petróleo. O Presidente dos EUA, Donald Trump, rejeitou uma proposta iraniana de sete dias para reabrir o Estreito de Ormuz, levantada por Teerão na Assembleia Geral da ONU. Segundo a imprensa norte-americana, Trump afirmou que o Irão tinha esticado demasiado a corda e que espera que as negociações sejam retomadas esta semana, enquanto Teerão garantiu que não vai aliviar as suas condições.

A reacção do mercado petrolífero foi imediata, mas de curta duração. O Brent chegou a subir mais de 4 dólares por barril no início da sessão, mas acabou por fechar com um ganho de cerca de 1%, perto dos 105 dólares, à medida que se esperava que mediadores do Catar conversassem separadamente com o Irão e os EUA.

Contribuíram também para o recuo as notícias de que a Saudi Aramco retomou os envios através do seu oleoduto Este-Oeste, que transporta cerca de 4% do abastecimento mundial. A Arábia Saudita tinha encerrado totalmente a infra-estrutura a 11 de Setembro, por precaução, após ataques que danificaram estações de bombagem ao longo do percurso.

Petróleo e juros andam de mãos dadas

Os analistas notam que as taxas de juro estão hoje muito dependentes do preço do crude. Segundo o BMO Capital Markets, a correlação a um mês entre o crude WTI e a rendibilidade a 10 anos chegou a 0,96. Um estratega ouvido pelo Wall Street Journal resumiu o quadro: o petróleo, as expectativas de inflação persistentes, a economia resistente e as elevadas necessidades de financiamento dos Estados estão a empurrar para cima as taxas de desconto a nível global.

O movimento representa uma viragem face ao início do ano. No início de 2026, alguns bancos de Wall Street previam cortes de juros pela Reserva Federal, mas o choque energético provocado pela guerra com o Irão e os sinais de uma economia resistente mudaram completamente o rumo da política monetária. A Fed subiu este mês as taxas pela primeira vez desde 2023; em Janeiro, a rendibilidade a 10 anos estava em 4,15%. Os mercados atribuem cerca de 70% de probabilidade a nova subida em 28 de Outubro.

Os investidores aguardam agora dados que podem reforçar essa expectativa. A inflação subjacente medida pelo índice PCE e a revisão final do PIB do segundo trimestre são publicadas na quarta-feira, 30 de Setembro, e os números do emprego de Setembro saem na sexta-feira, 2 de Outubro.

A perspectiva é de juros altos por mais tempo. Um analista da S&P Global Ratings admitiu que as rendibilidades podem continuar a subir de forma gradual e sublinhou: “Vemos o choque dos preços da energia a prolongar-se até 2027.”

Para Angola, o cenário tem duas faces. O petróleo acima dos 100 dólares reforça as receitas de exportação e fiscais do país. Em contrapartida, juros mais altos nos EUA encarecem o financiamento dos mercados emergentes, tornando mais cara a emissão de nova dívida nos mercados internacionais e o refinanciamento de eurobonds, e tendem a pressionar as moedas desses países face ao dólar.

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