Fraudes com recurso a inteligência artificial, circulação de criptoativos, pagamentos instantâneos e branqueamento de capitais no setor imobiliário estão entre as principais ameaças identificadas pela nova Autoridade Europeia de Combate ao Branqueamento de Capitais (AMLA), que começará a supervisionar diretamente instituições financeiras transfronteiriças a partir de 2027. O organismo alerta para um cenário de risco “cada vez mais complexo, rápido e tecnológico”.
A futura Autoridade de Combate ao Branqueamento de Capitais vai assumir, dentro de dois anos, um papel central na luta contra o branqueamento de capitais e o financiamento do terrorismo na União Europeia, num contexto marcado pela explosão das fraudes digitais e pelo crescimento acelerado das operações financeiras instantâneas e transfronteiriças.
Num relatório divulgado esta semana, após uma ronda de consultas realizada junto dos 27 Estados-membros, a AMLA conclui que as ameaças financeiras estão a evoluir rapidamente, impulsionadas pela tecnologia, pela digitalização da economia e pelas tensões geopolíticas.
Entre os riscos mais preocupantes está a fraude tecnológica, considerada uma das formas de criminalidade económica com crescimento mais acelerado. O documento destaca o uso crescente de inteligência artificial e de “deepfakes” para usurpação de identidade e burlas em larga escala.
Segundo a agência, a linha que separa fraude e branqueamento de capitais está “cada vez mais ténue”, uma vez que fundos obtidos de forma ilícita entram rapidamente nos circuitos financeiros internacionais.
Os pagamentos instantâneos surgem igualmente como um dos maiores desafios operacionais para bancos, supervisores e autoridades policiais. A possibilidade de transferir dinheiro em tempo real, 24 horas por dia, reduz drasticamente o tempo disponível para detetar operações suspeitas ou bloquear movimentos financeiros ilícitos.
“O risco transfronteiriço de branqueamento de capitais é persistente e, em algumas áreas, crescente”, alerta o relatório.
Os criptoativos representam outra frente crítica. A AMLA identifica vulnerabilidades associadas à rapidez das transferências, à dificuldade de identificar beneficiários efetivos e à utilização de plataformas com diferentes níveis de supervisão entre jurisdições.
Apesar da entrada em vigor do regulamento europeu dos mercados de criptoativos, conhecido como MiCA, persistem “desafios materiais de supervisão”, sobretudo devido à natureza global e descentralizada destes ativos digitais.
O relatório aponta ainda para a crescente dependência de ferramentas especializadas de análise blockchain, cuja capacidade está concentrada num número reduzido de fornecedores tecnológicos.
Além do universo digital, a AMLA alerta que o numerário e o imobiliário continuam a ser sectores clássicos de elevado risco para lavagem de dinheiro.
As autoridades europeias consideram que o mercado imobiliário mantém um forte potencial para ocultação de capitais ilícitos, sobretudo através de estruturas societárias opacas, uso de intermediários e dificuldades na identificação dos verdadeiros proprietários dos ativos.
Também o jogo online ilegal foi identificado como uma ameaça crescente, sobretudo devido à combinação entre anonimato digital, pagamentos rápidos e fraca capacidade de supervisão sobre plataformas que operam fora do espaço europeu.
A agência destaca ainda o impacto das tensões geopolíticas globais, particularmente desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, que levou ao reforço das sanções internacionais e ao aumento das tentativas de evasão financeira.
Segundo a AMLA, os esquemas de evasão a sanções estão cada vez mais ligados à cibercriminalidade, ransomware e utilização abusiva de plataformas digitais e ativos virtuais.
A nova autoridade europeia deverá supervisionar diretamente 40 grandes instituições financeiras que operam em vários países e coordenar a harmonização das regras de combate ao branqueamento de capitais em toda a União Europeia.