Os Estados Unidos realizaram, na segunda-feira, ataques militares “de autodefesa” no sul do Irão, visando plataformas de lançamento de mísseis e embarcações alegadamente envolvidas na colocação de minas, anunciou o comando militar norte-americano. A operação ocorreu numa altura em que o Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmava nas redes sociais que as negociações com Teerão estavam a “decorrer de forma positiva”.
Segundo o porta-voz do Comando Central dos EUA, capitão Tim Hawkins, os ataques tiveram como objectivo “proteger as tropas norte-americanas das ameaças representadas pelas forças iranianas”, sublinhando, contudo, que Washington continua a agir “com contenção durante o cessar-fogo em curso”.
As autoridades norte-americanas não divulgaram detalhes adicionais sobre as alegadas ameaças iranianas nem esclareceram de que forma esta operação poderá afectar o processo negocial em curso entre os dois países.
Do lado iraniano, não houve uma reacção oficial imediata. No entanto, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Qalibaf, deslocou-se ao Qatar para participar em negociações relacionadas com um eventual acordo com Washington. O Qatar, recorde-se, mantém milhares de milhões de dólares de fundos iranianos congelados e foi alvo de ataques intensos por parte do Irão durante o conflito.
O portal iraniano Tabnak, próximo do antigo comandante da Guarda Revolucionária MohsenRezaei, avançou que quatro membros da Guarda Revolucionária morreram nos ataques norte-americanos contra embarcações iranianas. A televisão estatal iraniana confirmou igualmente explosões nas imediações de Bandar Abbas, cidade estratégica situada no Estreito de Ormuz, onde se localizam um porto militar e um aeroporto de uso misto.
Os ataques representam mais um episódio de tensão a abalar o frágil cessar-fogo em vigor há várias semanas. O Estreito de Ormuz continua sob forte influência iraniana, afectando os mercados globais de energia, já que por esta via marítima circula uma parte significativa do petróleo bruto e gás natural comercializados mundialmente.
Trump quer expansão dos Acordos de Abraão
Entretanto, Donald Trump defendeu que qualquer entendimento para pôr fim ao conflito com o Irão deve incluir a adesão de vários países aos Abraham Accords, promovidos pelos EUA durante o seu primeiro mandato.
O Presidente norte-americano referiu especificamente a Arábia Saudita, o Qatar e o Paquistão como países que deveriam aderir “imediatamente” aos acordos de normalização diplomática com Israel. Bahrein e os Emirados Árabes Unidos foram os primeiros países árabes a reconhecer formalmente Israel no âmbito destes acordos, em 2020.
Trump afirmou que, “depois de todo o trabalho desenvolvido pelos Estados Unidos para reunir este complexo puzzle”, seria “obrigatório” que estes países assinassem os Acordos de Abraão em simultâneo.
A proposta surge numa altura em que o entendimento emergente com o Irão enfrenta críticas de sectores republicanos que defendem uma posição mais dura perante Teerão. A iniciativa poderá ainda complicar diplomaticamente as negociações.
Paquistão mantém posição sobre Israel
O reconhecimento de um Estado palestiniano continua, contudo, a ser uma condição essencial para o Paquistão estabelecer relações diplomáticas com Israel. Analistas paquistaneses sublinham que a posição de Islamabad permanece inalterada, apesar da pressão norte-americana.
O antigo embaixador paquistanês nos EUA, MasoodKhan, considerou que ainda é cedo para avaliar a viabilidade da proposta de Trump, acrescentando que a introdução dos Acordos de Abraão nas negociações “cria uma nova dimensão diplomática”, uma vez que o tema não fazia parte da agenda inicial.
Apesar das dificuldades, Khan defendeu que “a via diplomática continua activa” e afirmou que o Paquistão permanece “no centro do processo de mediação”, com apoio de outros países da região.
Trump sugeriu ainda que, caso seja alcançado um acordo abrangente, o próprio Irão poderá eventualmente aderir aos Acordos de Abraão.