Internacional

EUA planeiam instalar centro de tratamento de Ébola no Quénia para evitar repatriar americanos infectados

Administração Trump quer tratar cidadãos americanos expostos ao vírus em África, sem os transportar para os Estados Unidos. Médicos e especialistas criticam a decisão.

A administração Trump planeia criar uma unidade de quarentena e tratamento de Ébola no Quénia, destinada a cidadãos americanos expostos ao vírus enquanto trabalham no estrangeiro, evitando assim a sua repatriação para os Estados Unidos. A informação foi avançada esta quarta-feira por um responsável da administração que pediu anonimato.

A instalação será criada em conjunto pelos Departamentos da Defesa, de Estado e de Saúde e Serviços Humanos, e destina-se sobretudo a doentes que precisem de sair rapidamente da República Democrática do Congo — epicentro do actual surto — e receber tratamento sem terem de suportar uma evacuação médica de várias horas até aos Estados Unidos. Não foi revelado onde exactamente no Quénia ficará a unidade, nem se o governo queniano já deu luz verde ao projecto.

O ministro da Saúde do Quénia, Aden Duale, confirmou que os dois países estão em conversações sobre “mecanismos de preparação e resposta ao Ébola”, mas não confirmou a criação de uma instalação para americanos. Numa declaração, sublinhou que “qualquer acordo de cooperação internacional em matéria de saúde será orientado pelas leis nacionais do Quénia, pelos regulamentos de saúde pública e pela responsabilidade do Governo em salvaguardar a saúde e o bem-estar dos quenianos”.

A decisão divide especialistas. O Dr. Ali Khan, decano da faculdade de saúde pública da Universidade do Nebraska, lembrou que durante décadas os especialistas têm recomendado mover o menos possível os doentes com Ébola, dado o risco de agravamento durante o transporte. Para Khan, a qualidade dos cuidados prestados na nova unidade terá de ser equivalente à das instalações americanas — o que considera difícil de garantir.

Mais crítico foi o Dr. Craig Spencer, professor de saúde pública na Universidade de Brown e sobrevivente de Ébola em 2014, que disse não esperar que a unidade no Quénia ofereça os mesmos cuidados que as instalações especializadas nos Estados Unidos. Spencer classificou a recusa em repatriar americanos infetados como “uma abdicação moral daquilo que este país deve aos seus cidadãos”.

Trump em 2014 já defendia esta solução

A posição actual da administração não é nova. Em 2014, quando um surto devastador de Ébola assolou a África Ocidental e o então presidente Barack Obama autorizou a repatriação de americanos infetados, Trump — então empresário e figura televisiva — criticou duramente a decisão. “Os EUA não podem permitir que pessoas infetadas com Ébola regressem. As pessoas que vão a lugares distantes para ajudar são admiráveis — mas têm de sofrer as consequências!”, escreveu na altura. E propôs exactamente o que agora está a ser implementado: “Tratá-los, ao mais alto nível, lá.”

Esta semana, o secretário de Estado Marco Rubio reforçou a posição da administração: “Não podemos nem vamos permitir que qualquer caso de Ébola entre nos Estados Unidos.”

O surto no Congo

O número de casos suspeitos de Ébola no leste do Congo aproxima-se dos mil, com pelo menos 220 mortes suspeitas. O Ministério da Saúde congolês confirmou 101 casos e monitoriza mais de três mil contactos. A Organização Mundial de Saúde alertou que as autoridades locais estão a ser ultrapassadas pelo ritmo do surto, num contexto agravado pela presença de grupos armados, grande número de deslocados e infraestruturas precárias.

Um médico americano que trabalhava no Congo testou positivo para Ébola e foi transportado para a Alemanha, onde se encontra em estado estável no Hospital Universitário Charité de Berlim. Outro missionário médico americano foi isolado na República Checa após exposição ao vírus, sem apresentar sintomas.

Do lado preventivo, as autoridades americanas alargaram os controlos sanitários em vários aeroportos, incluindo Washington Dulles, Atlanta, Houston e, a partir desta sexta-feira, o JFK em Nova Iorque. O governo suspendeu ainda temporariamente a entrada de não-cidadãos e de portadores de green card que tenham visitado o Congo, o Uganda ou o Sudão do Sul nos últimos 21 dias.

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