O Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou que os Estados Unidos garantiram controlo maioritário sobre mais de 65 mil milhões de barris de reservas petrolíferas da Venezuela, um acordo que Trump classificou nas redes sociais como o maior negócio petrolífero da história mundial. Segundo os termos divulgados, uma empresa conjunta entre o Governo norte-americano e um operador privado venezuelano vai receber uma concessão de 100 anos para desenvolver 17 campos petrolíferos estratégicos no país sul-americano.
De acordo com um responsável norte-americano citado por vários órgãos de comunicação social, os Estados Unidos deterão 55% da nova empresa conjunta, divididos entre participação accionista e o direito de comprar petróleo a preço de custo — combustível que deverá reforçar a Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA e abastecer as forças armadas norte-americanas. A operação foi negociada pelos Departamentos de Estado e de Defesa dos EUA, com Trump a atribuir o mérito ao secretário de Estado, Marco Rubio, e ao secretário da Guerra, Pete Hegseth.
A Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, confirmou o acordo, afirmando que este permitirá um aumento significativo da produção petrolífera com a participação de operadores privados, e apontando um investimento superior a 100 mil milhões de dólares e receitas fiscais que poderão ultrapassar 209 mil milhões de dólares para os cofres venezuelanos. Rodríguez precisou, em declaração televisiva, que o acordo terá a duração de 25 anos — e não os 100 anos inicialmente associados à concessão da empresa conjunta —, e que cerca de 19 dólares de cada barril produzido e vendido aos EUA reverterão para Caracas. A Venezuela detém as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, estimadas pela Administração de Informação de Energia dos EUA em mais de 300 mil milhões de barris — o que significa que o acordo abrange pouco mais de um quinto do total.
Um acordo que nasce da tutela de Washington sobre Caracas
O contexto político em que este negócio surge é determinante para o compreender. Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina da Venezuela depois de, em Janeiro de 2026, forças especiais dos Estados Unidos terem capturado o então Presidente Nicolás Maduro, entregando a liderança do país à sua vice-presidente. Desde então, Caracas tem estado sob pressão para alinhar a sua política petrolífera com as exigências de Washington, incluindo uma alteração à Lei Orgânica de Hidrocarbonetos, aprovada também em Janeiro de 2026, que o Governo venezuelano invoca para justificar que o acordo concede acesso operacional aos campos sem transferir a propriedade dos recursos.
É precisamente aí que se concentra a controvérsia. Rodríguez insistiu, em discurso transmitido pela televisão estatal, que a Venezuela mantém “propriedade e soberania” sobre os seus recursos, argumentando que o país contribui com mão-de-obra especializada e conhecimento da indústria, enquanto os EUA fornecem capital e tecnologia. Mas críticos de diferentes sectores do espectro político venezuelano — incluindo aliados do próprio Governo e a oposição — questionaram a legalidade do processo e alertaram para riscos à soberania nacional. O economista de Harvard Ricardo Hausmann descreveu o acordo como um assalto a activos, negociado com um governo que considera ilegítimo. Nos Estados Unidos, os senadores democratas Tim Kaine e Chris Van Hollen classificaram a operação como corrupção em larga escala. A líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, não participou nas negociações, segundo fontes próximas do processo, alimentando críticas de que o acordo foi fechado sem consulta ao espectro político mais amplo do país.
Acresce que nenhum texto oficial do acordo foi divulgado publicamente até ao momento, o que analistas como Francisco Monaldi, do Baker Institute da Universidade de Rice, apontaram como motivo de preocupação sobre a transparência da política petrolífera venezuelana — Monaldi calculou que o valor fiscal anunciado equivale a cerca de 3,20 dólares por cada um dos 65 mil milhões de barris abrangidos, uma cifra que, isolada, ajuda a explicar parte do cepticismo em torno das projecções mais optimistas do Governo.
Chevron e outras petrolíferas regressam ao terreno
Para Trump, que desde a saída de Maduro tem incentivado as petrolíferas norte-americanas a regressar à Venezuela, este acordo representa uma vitória política clara. Segundo o Wall Street Journal, a Chevron e outras empresas encontram-se agora, depois de meses de hesitação, próximas de fechar negócios de milhares de milhões de dólares no país. A Chevron é, actualmente, a única grande petrolífera norte-americana com produção activa na Venezuela, e fontes oficiais venezuelanas indicaram que estão a ser preparados acordos adicionais com outras empresas internacionais, incluindo a espanhola Repsol, a italiana Eni, a britânica Shell e a BP.
Ainda assim, especialistas do sector alertam que a infra-estrutura petrolífera venezuelana, seriamente degradada após anos de sanções e falta de investimento, exigirá anos e milhares de milhões de dólares para ser reabilitada — pelo que um aumento substancial da produção não deverá acontecer de forma rápida, independentemente da assinatura do acordo. Rodríguez indicou como meta inicial uma produção de 1,5 milhão de barris diários, no âmbito de um plano mais amplo que inclui ainda o desenvolvimento de oito novos blocos petrolíferos.
Analistas notam também uma fragilidade estrutural no desenho do acordo: tratando-se de uma concessão de longo prazo e não de uma transferência de propriedade soberana, mantém-se sujeita a alterações ou repúdio por parte de governos futuros — uma incerteza que se agrava pela falta de garantias de que a actual liderança em Caracas se manterá no poder, ou de que outro governo venezuelano, mais adiante, respeitará os termos agora fechados, sobretudo depois de terminado o mandato da actual administração norte-americana.