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Do quintal de Benguela ao Corredor do Lobito, o Grupo Carrinho quer ser o maior polo agroindustrial de Angola

Em Nairobi, numa cimeira internacional, Nelson Carrinho apresentou ao mundo um número que impressiona: 1.100 milhões de dólares em investimentos para Angola, ancorados no Corredor do Lobito e numa cadeia agroindustrial já em construção.

O Grupo Carrinho tem hoje um complexo industrial em Benguela com dezenas de fábricas a operar 24 horas por dia, acordos logísticos com o Porto Comercial do Lobito e com o Caminho de Ferro de Benguela, e uma ambição declarada de movimentar cerca de dois milhões de toneladas de matérias-primas e mercadorias por ano quando as unidades estiverem a plena capacidade. Parte do financiamento já tem rostos concretos: cerca de 57 milhões de euros para equipamentos industriais e outros 60 milhões de euros para uma refinaria de açúcar em desenvolvimento. Não são promessas — são obras em curso.

De um bar no quintal a um grupo industrial

A história começa em 1993, em Benguela, quando Leonor Lusitano Candundo Carrinho funda a empresa a partir de um pequeno bar instalado no quintal de casa. Um ano depois, um acordo informal com a Sonangol para servir refeições a técnicos no Lobito abriu a primeira porta de expansão. A ENE tornou-se cliente. O catering cresceu. As cozinhas multiplicaram-se por várias províncias.

A grande viragem chegou com a transição de grupo comercial para grupo industrial. Em 2019, foi criado o Complexo Industrial Carrinho — inicialmente com 17 fábricas, hoje com mais unidades, com capacidade para processar arroz, trigo, milho, óleos vegetais e outros bens de consumo essenciais. A refinaria de açúcar e a unidade de extração de soja são as apostas mais recentes, ainda em desenvolvimento.

Nelson Carrinho, que lidera o grupo desde 2004, herdou uma empresa de catering e logística. Está a entregar um grupo agroindustrial verticalmente integrado — da origem das matérias-primas ao produto final na prateleira.

O Corredor do Lobito como alavanca

A ligação estratégica ao Corredor do Lobito não é apenas logística — é política. O corredor, que liga o porto do Lobito ao interior de Angola e aos países vizinhos, é uma das apostas centrais do governo de João Lourenço para a diversificação económica e para a atração de investimento estrangeiro. O Grupo Carrinho posicionou-se cedo nessa aposta: os acordos com o porto e com o Caminho de Ferro de Benguela garantem ao complexo industrial de Benguela um acesso privilegiado às rotas de importação de matérias-primas e de exportação de produto acabado.

É esse posicionamento que explica a presença de Nelson Carrinho em cimeiras internacionais — e o número de 1.100 milhões de dólares que apresentou em Nairobi. O Grupo Carrinho não está apenas a crescer. Está a candidatar-se ao papel de âncora agroindustrial de um corredor que o mundo começa a olhar com atenção.

Entre o mérito e a proximidade ao poder

O percurso do Grupo Carrinho não é lido da mesma forma por todos. Para uns, é um caso exemplar de ascensão empresarial angolana — uma empresa familiar que saiu de um quintal em Benguela e chegou às cimeiras internacionais. Para outros, é uma empresa que beneficiou de uma proximidade ao poder que não está disponível para todos. A disputa aparece em análises jornalísticas e comentários públicos, e o próprio grupo não é alheio a ela.

O que é incontroverso é o percurso: de um pequeno negócio de restauração fundado por uma mulher em tempo de guerra, o Grupo Carrinho tornou-se um dos grupos empresariais mais visíveis de Angola. Se conseguir concretizar a ambição que apresentou em Nairobi, será também um dos mais relevantes para a segurança alimentar do país.

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