Entre Janeiro e Junho, a dívida do Estado angolano subiu 9,12% em relação a Dezembro de 2025, fixando-se em 72 mil milhões de dólares. O crescimento é explicado, sobretudo, pelas novas emissões de Eurobonds, segundo dados apresentados ao início da semana, em Luanda.
O balanço do Plano Anual de Endividamento (PAE) foi divulgado no Museu da Moeda pelo director-geral da Unidade de Gestão da Dívida Pública (UGD), Dorivaldo Teixeira, que sublinhou que o financiamento do Estado está hoje menos concentrado no curto prazo — uma mudança que, segundo o responsável, melhora a posição negocial de Angola e ajuda a reduzir as taxas de juro pagas pelo país. Os sectores dos transportes e da energia continuam a ser os que mais recursos absorvem.
Da dívida total, 50,91 mil milhões de dólares correspondem à dívida externa, que mantém o maior peso na carteira, enquanto a dívida interna soma 21,14 mil milhões de dólares.
O endividamento líquido executado no semestre atingiu 4.327,1 mil milhões de kwanzas, ultrapassando em 5,2% o limite previsto no PAE. Este desvio, de 214,7 mil milhões de kwanzas, foi relativizado por Dorivaldo Teixeira, que garante que a diferença deverá ser corrigida com as amortizações previstas para o segundo semestre.
Petróleo e menor percepção de risco favorecem Angola nos mercados
As tensões geopolíticas — com destaque para a guerra no Irão — pressionaram em alta a cotação do petróleo, principal produto de exportação de Angola, ainda que os ganhos tenham sido travados por constrangimentos ao nível da produção.
Mesmo assim, a subida dos preços do crude, associada a uma perceção de risco mais baixa em relação ao país, beneficiou Angola nos mercados internacionais, permitindo ao Estado obter financiamento a taxas mais vantajosas do que nas últimas temporadas.
Angola voltou ao mercado internacional de capitais em Março, repetindo a operação em Maio, ao mobilizar cerca de quatro mil milhões de dólares em Eurobonds — 2,5 mil milhões na primeira emissão e 1,5 mil milhões na segunda. A informação foi avançada pelo secretário de Estado para as Finanças e Tesouro, Ottoniel dos Santos, na abertura do evento.
Segundo Ottoniel dos Santos, as duas operações incluíram ainda a recompra antecipada de obrigações no valor de 1,2 mil milhões de dólares), com o objetivo de aliviar a concentração de amortizações previstas para 2028 e 2029.
No conjunto do semestre, as emissões e desembolsos somaram 9,9 mil biliões de kwanzas, contra 5,6 mil biliões de kwanzas em amortizações efetivamente pagas.
Menor dependência do petróleo como garantia
A dívida garantida por petróleo recuou de 7,37 mil milhões de dólares no final de 2025, para 6,83 mil milhões de dólares em Junho. Para Ottoniel dos Santos, este movimento é positivo, defendendo que “a sustentabilidade das finanças públicas não pode depender de forma permanente da evolução de uma única matéria-prima”.
O secretário de Estado deixou, no entanto, um alerta: o peso do serviço da dívida, a elevada exposição cambial e a volatilidade das condições de financiamento internacional continuam a condicionar a margem orçamental do país. Por isso, defendeu, o trabalho de gestão da dívida deve prosseguir “sem triunfalismos”.