A China vai investir mais de sete biliões de yuans — mais de mil milhões de dólares — nos próximos cinco anos para transformar o país numa “potência desportiva”, anunciaram esta quinta-feira responsáveis do governo chinês. A aposta insere-se no 15.º Plano Quinquenal (2026-2030) e reflecte a estratégia de Pequim de usar mais eventos desportivos ao ar livre como forma de estimular um consumo interno que continua enfraquecido.
Segundo Gao Zhidan, director da Administração Geral do Desporto da China, citado pela agência Xinhua numa conferência de imprensa do Gabinete de Informação do Conselho de Estado, o objectivo é elevar o valor total da indústria desportiva chinesa dos actuais 3,84 biliões de yuans, registados em 2024, para mais de sete biliões até ao final de 2030. O plano prevê ainda aumentar a área de instalações desportivas per capita para cerca de quatro metros quadrados — face aos 3,11 metros quadrados registados em 2025 — e elevar para cerca de 40% a proporção de residentes que praticam exercício físico regularmente, pelo menos três vezes por semana e com intensidade moderada.
Para além da renovação generalizada de infraestruturas desportivas — que inclui a construção ou modernização de mais de cinco mil pequenas instalações, como parques desportivos de bolso e campos multiusos, com prioridade para zonas densamente povoadas —, o plano visa também erradicar a corrupção no sector e travar aquilo a que as autoridades chamam “cultura tóxica dos adeptos”, que tem limitado o desfrute público dos eventos desportivos. Segundo o novo enquadramento, será criado um mecanismo de governação colaborativo e multissetorial, de carácter permanente, para combater o assédio online e as publicações difamatórias dirigidas a atletas e treinadores.
Pequim espera, ao mesmo tempo, incentivar mais cidadãos a praticar exercício físico, tornando mais activa uma população em envelhecimento acelerado e aliviando a pressão sobre o sistema de saúde nacional.
Consumo interno continua a ser o ponto fraco
O anúncio surge num momento em que a fragilidade persistente do modelo de crescimento chinês volta a estar em evidência: as vendas a retalho cresceram apenas 0,6% em Julho, face ao ano anterior, valor abaixo das expectativas dos analistas e inferior ao crescimento de 1% registado em Junho, segundo dados oficiais divulgados pelo Gabinete Nacional de Estatística. Sectores como o automóvel, a mobília e os materiais de construção registaram quedas acentuadas nas vendas, evidenciando a cautela persistente das famílias chinesas, também penalizadas pela crise prolongada no sector imobiliário.
Perante este cenário, Pequim lançou no início de Agosto um novo pacote de medidas para apoiar a procura interna, centrado no alargamento dos subsídios de juros para créditos ao consumo e no aumento dos limites de empréstimo disponíveis para os consumidores. No entanto, analistas do banco holandês ING consideram que o impacto destas medidas deverá ser “relativamente marginal”, alertando que os estímulos anteriores do género já tinham produzido resultados limitados tanto no mercado imobiliário como no consumo das famílias. O banco reviu ligeiramente em baixa a sua previsão de crescimento da economia chinesa para 2026, de 4,7% para 4,6%, citando a fraca dinâmica de crescimento e a persistência de pressões desinflacionistas.