A M42, empresa de saúde sediada em Abu Dhabi, assinou um contrato de dez anos com o Governo do Botswana para implementar um programa nacional de genómica, digitalizar os registos de saúde do país e reforçar o acesso da população a medicamentos. O acordo, assinado esta semana em Gaborone, capital botswanesa, representa a primeira parceria da M42 com um governo africano e uma das apostas comerciais mais significativas dos Emirados Árabes Unidos no sector da saúde no continente.
O contrato foi rubricado em nome do Governo do Botswana pelo secretário permanente em exercício, Tshepo Machacha, na presença do ministro da Saúde botswanês, Stephen Modise, e de Kareem Shahin, presidente executivo da plataforma de Soluções de Saúde Digital da M42 e director digital do grupo.
A M42, apoiada pelas gigantes emiratenses G42 e Mubadala, tem procurado expandir-se de forma agressiva nos mercados do Sul Global, onde identifica, nas palavras do seu presidente executivo, Dimitris Moulavasilis, “uma oportunidade distinta para as nações darem um salto em frente e ultrapassarem os sistemas legados” de saúde. A declaração, feita num comunicado, resume a estratégia da empresa: em vez de reproduzir os modelos tradicionais de infraestrutura hospitalar, a M42 aposta em tecnologia, dados genómicos e inteligência artificial para permitir que países com sistemas de saúde menos desenvolvidos avancem diretamente para soluções mais avançadas.
Sequenciação genómica à escala populacional
A parceria com o Ministério da Saúde do Botswana vai incluir um esforço de sequenciação genómica ao nível da população, que promete gerar um vasto volume de dados e ajudar a rastrear condições de saúde tratáveis. O acordo inclui ainda o reforço das cadeias de abastecimento farmacêutico e de material médico, em articulação com a Mubadala Bio, a unidade de ciências da vida do fundo soberano de Abu Dhabi. Por agora, não foi avançado um calendário concreto para a implementação do projeto de genómica.
Segundo o ministro da Saúde do Botswana, Stephen Modise, o acordo “diz respeito ao reforço da segurança sanitária do país, à construção de resiliência nas cadeias de abastecimento e a garantir que nenhum paciente no Botswana fica sem os medicamentos e produtos médicos de que precisa por atrasos evitáveis”. Através desta parceria, sublinhou o governante, o país passa a ter “uma porta de entrada fiável para medicamentos, material médico e produtos de saúde, sempre que e onde o país deles precisar”.
Modelo já testado nos Emirados Árabes Unidos
A aposta no Botswana segue de perto o modelo que a M42 já aplica em Abu Dhabi através do Emirati Genome Programme, um esforço de sequenciação genómica populacional liderado pelo Departamento de Saúde de Abu Dhabi que já recolheu e sequenciou perto de um milhão de amostras genéticas — incluindo cerca de 100 mil de pessoas não-emiratenses. Esses dados têm sido usados para associar pacientes à medicação mais adequada ao seu perfil genético, rastrear recém-nascidos para deteção precoce de doenças tratáveis e reduzir a incidência de doenças hereditárias.
A empresa já tinha assinado um acordo preliminar semelhante com o Uzbequistão e desenvolve um projeto de digitalização do sistema de saúde na Jordânia, tendo manifestado interesse em expandir este modelo a outros países do Sul Global e do Sul da Europa. O acordo com o Botswana marca, contudo, a primeira vez que a M42 firma um compromisso governamental deste tipo em território africano — um continente que, segundo a própria empresa, enfrenta uma carga de doença desproporcionalmente elevada em relação aos recursos de saúde disponíveis, o que reforça o potencial impacto de parcerias tecnológicas desta natureza para o reforço dos sistemas nacionais de saúde.