Mercados Financeiros

Banco Sol e consultora internacional Alvarez & Marsal levam crédito malparado a debate no AFIS 2026

Sessão paralela organizada pelo Banco Sol, com o apoio da Alvarez & Marsal, discutiu a problemática das exposições não produtivas no sector bancário, que, segundo especialistas, continua a representar um dos principais constrangimentos à expansão do financiamento às economias africanas

O Banco Sol e a consultora internacional Alvarez & Marsal reuniram, esta Terça-feira, 3, em Luanda, líderes do sector financeiro africano e especialistas internacionais para discutir soluções de recuperação de activos, reforço dos balanços bancários e desbloqueio da capacidade de concessão de crédito.

Realizado à margem do Africa Financial Summit (AFIS) 2026, sob o tema 𝐵𝑒𝑦𝑜𝑛𝑑 𝐵𝑎𝑑 𝐿𝑜𝑎𝑛𝑠: 𝑅𝑒𝑠𝑡𝑜𝑟𝑖𝑛𝑔 𝐵𝑎𝑛𝑘 𝐵𝑎𝑙𝑎𝑛𝑐𝑒 𝑆ℎ𝑒𝑒𝑡𝑠 𝑎𝑛𝑑 𝑈𝑛𝑙𝑜𝑐𝑘𝑖𝑛𝑔 𝐶𝑟𝑒𝑑𝑖𝑡 𝐺𝑟𝑜𝑤𝑡ℎ, o debate procurou alargar a discussão para além de uma abordagem centrada exclusivamente na recuperação da dívida, colocando em perspectiva uma questão mais abrangente: como libertar os balanços bancários de activos problemáticos e devolver às instituições a capacidade de financiar o crescimento económico.

Integraram o painel Osvaldo Lemos Macaia, CEO do Banco Sol; António Ramalho, antigo CEO do Novo Banco e actual Senior Advisor da Alvarez & Marsal; Admassu Tadesse, Group President e CEO do Trade and Development Bank (TDB); e Avelino Kiampuku, administrador executivo da Recredit. Moderou a sessão o Presidente da Deloitte Angola, José Barata.

Na perspectiva partilhada pelos oradores e por vários participantes na sessão, o peso do crédito malparado nos balanços dos bancos continua a representar um dos principais constrangimentos à expansão do financiamento às economias africanas e à economia global. Mais do que um desafio de recuperação de activos, os empréstimos não produtivos comprometem a liquidez, condicionam a rentabilidade e limitam a capacidade das instituições financeiras de apoiar famílias, empresas e projectos de investimento, conforme assinalaram os gestores e especialistas que participaram no side event.

Foi em torno desta realidade que o Banco Sol e a Alvarez & Marsal promoveram a sessão de reflexão sobre os desafios e as soluções para a gestão do crédito malparado, reunindo decisores do sector financeiro africano e especialistas com experiência nos mercados internacionais.

Na abertura da sessão, Osvaldo Lemos Macaia defendeu a necessidade de tratar o crédito malparado como um legado que exige mecanismos próprios de resolução, evitando que os problemas acumulados no passado continuem a absorver recursos e atenção que devem estar orientados para a actividade presente e futura dos bancos.

“Os empréstimos não produtivos são passados e a principal actividade deve estar focada no futuro”, sublinhou o gestor, destacando a importância de recuperar e reestruturar activos, sem comprometer a capacidade das instituições de gerar valor e financiar a economia.

A experiência europeia esteve igualmente no centro da discussão, através da intervenção de António Ramalho, antigo presidente executivo do Novo Banco, em Portugal, onde esteve directamente envolvido num processo de recuperação e transformação institucional. A sua abordagem evidenciou que não existe uma solução universal para o crédito malparado: a resposta depende da realidade de cada banco, do enquadramento regulatório, da estrutura accionista e das condições do mercado. A experiência demonstra, contudo, que a transparência, a capacidade de execução e a adopção de decisões de gestão firmes são determinantes para recuperar activos e restabelecer a solidez financeira.

A dimensão operacional do problema foi abordada por Avelino Kiampuku, administrador executivo da Recredit, que destacou a importância de intervir desde a origem do crédito. A avaliação rigorosa do risco, a qualidade das garantias, o acompanhamento dos devedores e a capacidade de mobilizar equipas multidisciplinares, incluindo competências jurídicas e judiciais, foram apontados como factores essenciais para prevenir a deterioração dos activos e acelerar os processos de recuperação.

O responsável chamou igualmente a atenção para os constrangimentos associados à morosidade dos processos judiciais, que podem contribuir para a desvalorização das garantias e reduzir a eficácia dos mecanismos de recuperação.

Numa perspectiva continental, Admassu Tadesse, Group President e CEO do Trade and Development Bank (TDB), defendeu a reflexão sobre mecanismos regionais de resolução de activos problemáticos, inspirados em experiências internacionais, como forma de ampliar a capacidade de resposta dos sistemas financeiros africanos. A dimensão do desafio exige, segundo a abordagem apresentada, soluções que ultrapassem a actuação isolada de cada instituição e mobilizem investidores, bancos e entidades regionais.

A convergência das diferentes perspectivas — da experiência europeia à intervenção operacional da Recredit e à visão de soluções regionais para África — reforçou uma conclusão central: a resolução do crédito malparado exige estratégia, capacidade institucional, instrumentos adequados e uma actuação coordenada.

Ao promover este debate, o Banco Sol posiciona-se no diálogo sobre um dos temas estruturais da estabilidade financeira e do desenvolvimento económico do continente. Num contexto em que África precisa de ampliar o acesso ao financiamento e mobilizar capital para o crescimento, recuperar a qualidade dos balanços bancários é também criar condições para que o crédito volte a cumprir a sua função essencial: financiar a economia.

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