Mercados Financeiros

Baixa literacia, pouca liquidez e falta de preparação das empresas trava expansão do mercado de capitais em Angola

A baixa literacia financeira, a reduzida liquidez, a falta de preparação das empresas e a qualidade do relato financeiro continuam entre os principais obstáculos ao desenvolvimento do mercado de capitais angolano, apesar do crescimento registado nos últimos anos.

O diagnóstico foi apresentado no 5.º Fórum do Mercado de Capitais, realizado a 23 de Setembro, em Luanda, sob o lema “Desafios e Oportunidades”, numa iniciativa da Media Rumo em parceria com a Comissão do Mercado de Capitais (CMC). O encontro reuniu reguladores, operadores, investidores, representantes do sector empresarial e especialistas nacionais e internacionais.

A literacia financeira esteve no centro dos debates, com vários participantes a considerarem que o conhecimento insuficiente sobre produtos e mecanismos do mercado limita a entrada de novos investidores e dificulta o alargamento da base de empresas interessadas em recorrer à bolsa para obter financiamento.

Conhecimento financeiro como factor de crescimento

O presidente da Comissão Executiva da BFA Capital Markets, Odair Costa, considerou que o mercado de capitais angolano se encontra numa fase ascendente, mas precisa de ultrapassar vários constrangimentos para aproveitar plenamente as oportunidades existentes.

Entre os principais desafios, apontou o baixo nível de literacia financeira entre investidores, empresas emitentes e outros participantes do mercado. Na sua perspectiva, a questão assume particular importância entre as empresas, numa altura em que o Programa de Privatizações (PROPRIV) se aproxima de uma fase em que será necessário atrair também empresas privadas para o mercado de capitais.

Odair Costa defendeu, por isso, uma aposta em programas de educação financeira que abranjam diferentes segmentos da sociedade, desde os mais jovens até aos investidores e profissionais do sector.

A posição foi secundada por Dilson Gaspar, administrador executivo da BODIVA, para quem a resolução do problema da literacia financeira poderá produzir efeitos em cadeia sobre outros constrangimentos que afectam o funcionamento do mercado.

A própria CMC, na sua intervenção institucional sobre o fórum, destacou a necessidade de reforçar confiança, transparência, inovação e literacia financeira como condições para consolidar um mercado de capitais mais robusto e inclusivo.

Mercado cresce, mas procura maior profundidade

Os desafios identificados no fórum surgem num contexto de expansão da actividade dos mercados regulamentados administrados pela BODIVA.

Dados da própria bolsa indicam que, em 2025, foram realizados 37.156 negócios, contra 10.328 no ano anterior, representando um aumento de 259,76%. O montante negociado, contudo, situou-se em cerca de 5,73 biliões de kwanzas, menos 5,45% do que em 2024.

No final de 2025, a BODIVA registava ainda 47.778 contas activas, enquanto o montante sob sua custódia atingia 17,14 biliões de kwanzas, mais 44,99% em termos homólogos.

Os números mostram, assim, uma evolução significativa da actividade, mas também ajudam a explicar a preocupação dos operadores com a necessidade de aumentar a profundidade e a liquidez do mercado.

O presidente executivo da Ohuasi Investment, Augusto Baptista, defendeu no fórum que, depois das grandes operações realizadas no mercado, Angola deverá concentrar esforços na criação de um mercado mais profundo e líquido, caracterizado por uma maior rotação dos activos. Entre as soluções mencionadas estiveram instrumentos como as operações de recompra (REPOs), empréstimos de carteira e mecanismos capazes de facilitar a entrada de capital estrangeiro.

Empresas enfrentam novos requisitos

Outro dos problemas identificados está do lado da oferta. Para que o mercado cresça, não basta aumentar o número de investidores: é necessário que mais empresas estejam preparadas para emitir acções ou dívida e cumprir os requisitos de transparência, governação e divulgação de informação.

Pedro Silva, managing partner da Ernst & Young, apontou a qualidade do relato financeiro como outro desafio relevante. Segundo o responsável, algumas empresas angolanas ainda necessitam de elevar o nível de maturidade dos seus sistemas de relato, o que pode contribuir para atrasar a entrada de determinadas empresas em bolsa.

A questão é particularmente relevante para as pequenas e médias empresas. Adilson Gaspar, da BODIVA, explicou que estas empresas enfrentam dificuldades relacionadas com histórico financeiro, governação e transparência da informação, enquanto os investidores enfrentam dificuldades na avaliação e acompanhamento do risco associado a empresas com informação limitada.

Depois das privatizações

O desenvolvimento do mercado de capitais angolano tem sido fortemente impulsionado pelo PROPRIV, através da colocação de empresas no mercado e da realização de ofertas públicas.

No fórum, o presidente do conselho de administração do IGAPE, Álvaro Fernão, salientou que o programa já realizou operações relevantes e que o desafio futuro passará também por olhar para empresas para além das grandes unidades estratégicas que estiveram no centro da primeira fase do processo.

Esta transição poderá ser determinante para o futuro da bolsa angolana. Com a redução gradual do número de grandes empresas públicas susceptíveis de serem privatizadas, o crescimento do mercado dependerá cada vez mais da capacidade de atrair empresas privadas, incluindo médias empresas, e de criar condições para que estas vejam o mercado de capitais como uma alternativa efectiva ao financiamento bancário.

Na abertura do fórum, o presidente da CMC, Elmer Serrão, defendeu precisamente a necessidade de diversificar as fontes de financiamento da economia e reforçar o papel do mercado de capitais na ligação entre a poupança e as necessidades de investimento das empresas.

Mais investidores, mas também mais confiança

A expansão do número de investidores dependerá, por outro lado, da capacidade de transformar o mercado de capitais num instrumento compreensível e acessível para uma parcela mais ampla da população.

A BODIVA disponibiliza actualmente um Guia do Investidor, um simulador e o acesso ao Portal do Investidor, instrumentos destinados a facilitar a compreensão dos produtos financeiros e a participação nos mercados regulamentados. A bolsa recomenda que os investidores conheçam previamente as características, os riscos e as condições dos instrumentos antes de tomar decisões de investimento.

O debate realizado no 5.º Fórum do Mercado de Capitais evidencia, assim, que o desafio de Angola já não passa apenas pela criação das infra-estruturas do mercado. A próxima etapa envolve aumentar o conhecimento financeiro, preparar melhor as empresas, melhorar a qualidade da informação, ampliar a base de investidores e assegurar maior liquidez.

A consolidação destes factores poderá determinar a capacidade do mercado de capitais para cumprir um dos objectivos destacados pela CMC no encontro: deixar de ser apenas uma plataforma de negociação de activos e assumir um papel mais relevante na mobilização da poupança e no financiamento da economia angolana.

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