Internacional

Andy Burnham torna-se primeiro-ministro do Reino Unido, o sétimo em dez anos

O antigo presidente da Câmara de Manchester sucede a Keir Starmer numa cerimónia que, apesar da turbulência que a precedeu, segue um protocolo praticamente inalterado desde há séculos: só depois de “beijar as mãos” do rei Carlos III é que Burnham assume oficialmente o cargo.

Andy Burnham torna-se esta segunda-feira, 20 de Julho, o novo primeiro-ministro do Reino Unido, sucedendo a Keir Starmer sem necessidade de eleições gerais — uma possibilidade que a democracia parlamentar britânica permite sempre que um partido no poder troca de líder a meio do mandato. Burnham, de 56 anos, foi o único candidato à liderança do Partido Trabalhista, e a maioria confortável do partido na Câmara dos Comuns garante-lhe automaticamente as chaves de Downing Street. Torna-se assim o sétimo primeiro-ministro britânico em dez anos.

Uma cerimónia com séculos de história

O dia segue uma coreografia protocolar bem definida. Starmer percorre o curto trajecto entre Downing Street e o Palácio de Buckingham para comunicar formalmente ao rei Carlos III a sua demissão. Pouco depois, é a vez de Burnham ser recebido pelo monarca, que lhe pede que forme governo — o momento conhecido como “beijar as mãos” (“kissing hands”), que remonta a uma época em que era o rei quem detinha o poder supremo e escolhia livremente o seu principal ministro. É só nesse instante, e não antes, que Burnham passa oficialmente a primeiro-ministro, ainda que tenha sido tratado como “líder em espera” ao longo da última semana. No Reino Unido de hoje, uma monarquia constitucional em que os poderes reais estão estritamente limitados por lei e tradição, o ritual sobrevive como eco simbólico de um tempo em que a autoridade para governar emanava directamente da coroa. Depois da audiência, Burnham deverá dirigir-se pela primeira vez ao país como primeiro-ministro, junto à célebre porta preta do número 10.

A queda de Starmer

Starmer chegara a Downing Street há apenas dois anos, depois de ter conduzido o Partido Trabalhista a uma vitória esmagadora nas eleições de 2024 que puseram fim a 14 anos de governos conservadores. A lua-de-mel foi curta: uma sucessão de erros políticos e recuos em medidas anunciadas foi minando o apoio popular ao seu governo. A pressão intensificou-se depois de maus resultados nas eleições locais de Maio e agravou-se em Junho, quando Burnhamvenceu, com 55% dos votos, uma eleição intercalar em Makerfield frente à direita radical de Nigel Farage — um resultado que reforçou a posição do então presidente da Câmara de Manchester como sucessor natural e levou vários deputados trabalhistas a exigir a saída de Starmer. Para evitar uma demissão em cadeia de ministros que o acabaria por forçar a sair de forma mais desgastante, Starmeranunciou a sua própria demissão a 22 de Junho, comprometendo-se a assegurar “uma transição de poder ordenada” até à escolha do sucessor. Na despedida dos deputados, a semana passada, garantiu a Burnham o seu “apoio incondicional”.

O Partido Trabalhista espera que a chegada de Burnham trave a rápida rotatividade de líderes que tem marcado a política britânica na última década. O novo primeiro-ministro não é obrigado a convocar eleições gerais antes de 2029 — cinco anos depois da votação de 2024 —, ainda que tenha a prerrogativa de o fazer mais cedo se assim o entender.

Larry, o gato que já viu passar seis primeiros-ministros

Antes do final do dia, Burnham deverá cruzar-se com o residente mais famoso de Downing Street: Larry, o gato malhado cinzento e branco que vive na residência oficial desde 2011 e que já “sobreviveu” a seis primeiros-ministros. Adoptado nessa altura como rato-caçador oficial do governo britânico, Larrytornou-se uma espécie de mascote informal do cargo, com perfil próprio no site do governo e mais de 900 mil seguidores nas redes sociais. Resta saber como vai reagir Axel, o cão de Burnham, à nova convivência.

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