O índice de preços ao consumidor nos Estados Unidos subiu 4,2% em Maio, o valor mais alto desde Abril de 2023. Confrontado com os números, Donald Trump não os negou nem os minimizou — elogiou-os. A frase custou-lhe um ciclo de ataques da oposição e levantou dúvidas sobre como o Presidente está a gerir a narrativa económica antes das intercalares de Novembro.
“Sabem o que eu adoro mesmo? Adoro a inflação.” A frase saiu da boca de Donald Trump nesta quarta-feira, em comentários transmitidos em directo, depois de o governo ter divulgado que os preços ao consumidor subiram 4,2% em termos homólogos em Maio — o ritmo mais elevado em mais de dois anos.
Foi uma viragem surpreendente. Trump tinha prometido na campanha de 2024 derrotar rapidamente a inflação. Desta vez, não negou os números nem os atribuiu a uma conspiração democrata, como fez no passado. Em vez disso, elogiou-os, argumentando que a subida de preços é uma consequência directa da guerra com o Irão e do encerramento do Estreito de Ormuz — e que a solução já está a caminho.
O Presidente revelou uma “missão secreta” iniciada em Maio que terá permitido escoar 100 milhões de barris de petróleo pelo estreito, com mais de 200 navios comerciais a atravessar a via marítima. “Temo-los estado a retirar, milhões de barris de petróleo, todas as noites”, disse Trump, atribuindo a essa operação a descida do preço do barril abaixo dos 90 dólares, depois de ter ultrapassado os 110 dólares em Abril. Não foram apresentados dados independentes para suportar esses números e o papel concreto das forças militares americanas na operação não foi imediatamente esclarecido.
Os mercados foram céticos: o crude norte-americano subiu cerca de 4% na quarta-feira, a fechar perto dos 92 dólares por barril — precisamente enquanto os EUA lançavam novos ataques contra o Irão e Teerão respondia com ataques a bases americanas na região.
Os democratas não deixaram passar a oportunidade. Uma congressista democrata pressionou o secretário de Energia, Chris Wright, numa audição parlamentar: “Também ama a inflação?” Wrightrespondeu a falar do Irão, concedendo apenas depois de insistência: “Preferia inflação mais baixa.” Quanto à frase do Presidente, disse que Trump é “um tipo entusiasta e hiperbólico que tem feito uma liderança tremenda.”
A Casa Branca tentou atenuar os danos, sublinhando que alguns preços desceram em Maio face ao mês anterior — automóveis novos, medicamentos, seguros. Mas o impacto na capacidade de compra real é negativo: quando a inflação é comparada com a variação dos salários horários, o poder de compra dos americanos está a recuar.
O porta-voz da Casa Branca Kush Desai garantiu em comunicado que “o Presidente Trump tem mantido consistentemente que os preços do petróleo e do gás — e portanto a inflação global — vão cair a pique assim que a situação com o Irão estiver resolvida.” Com as eleições intercalares de Novembro no horizonte e a economia no topo das preocupações dos eleitores, a equação política de Trump ficou esta quarta-feira mais difícil — independentemente do que diz amar.